Tuesday, May 5, 2009

FAQ II

1 – Onde e como voce esta?
Hoje e dia 5 de maio, estou em Arbil, capital do Curdistao iraquiano. Fiquei uma semana aqui para que pudesse atualizar o blog. Espero estar no Iran amanha.
To com uma puta ressaca por conta da noite de ontem, quando compramos cervejas e Red Label (fazia quase UM ANO que nao tomava whisky)… Dado que nao poderei beber no Iran, meus amigos curdos-iranianos me disseram: "Nooshe jan!" (saude, em farsi), o que considerei uma sentence para que eu bebesse todas.

2 – Quando volta?
Este ano. Até setembro, Inshah Allah!

3 - O que tem sido mais difícil?
O difícil é ser moral… e usar os buracos no chão (leiam o blog para entender, imaginar nao e recomendavel).

4 – Tem comido direito? Onde tem dormido?
(Pergunta para tranquilizar mãe e amigas, como sempre). No Oriente Médio é impossível comer mal. Sempre sou convidado para refeições por desconhecidos e a comida é muito mais barata que na América do Sul. Um amigo meu, ao me ver pela webcam, até me disse que engordei.
Os hotéis não custam mais do que seis dólares, e o local mais incomum em que passei a noite foi numa caverna.

5 – E a mulherada?
Tem amigo que mal me pergunta, “E aí, tá tudo bem?”, e já vem com, “Pegou alguém?”. Esquecem-se de que estou no Oriente Médio... Nos paises muculmanos o casorio e' regra. As excecoes tem algumas saidas, dentre elas: apelar pra prostitutes, praticar sodomia com os "amigos", ou jejuar. Assim, estou jejuando às segundas e terças-feiras.

6 – Por que fechou o blog?
Por conta do visto iraniano. Depois que li no Lonely Planet que uma mulher teve seu visto negado por conta de informações encontradas na internet, resolvi bloquear o blog até definir minha situação com o Ministério de Relações Exteriores do Irã. Ele continuara assim ate que eu saia do pais, apenas por precaucao.

7 – Não sente falta de nada?
De muitas coisas… mas muita do vaso sanitário.

8 – Faz quanto tempo que esta (estou sem acentos de novo) na Estrada?
Parti com Satomi, Cassio e Allan no dia 22 de maio para Yuba… ha quase um ano.

9 – Como vai ser o esquema da volta?
Sei que preciso pegar o aviao pro Brasil na Europa, provavelmente na Alemanha. Mas nao se preocupem, deixei de lado o plano original (ir ate o Japao) ha um bom tempo e o meu ponto de inflexao da viagem ja e' um pais vizinho.

10 – Qual vai ser a primeira coisa que ira' fazer ao chegar no Brasil?
Ir a um espetaculo do meu querido Timao.

Irã: agora vai? - Arbil/Iraque

Ai, que preguiça. Três meses sem atualizar o blog… Meu recorde! Talvez pareça uma desculpa insuficiente, mas vou usá-la. Por mais de dois meses minha sina esteve relacionada ao Irã e preferi não postar até definir minha situação. Há também um outro agravante: o fato de não poder usar o blogspot na Síria, na qual passei quase dois meses por conta da dita cuja.

Se vocês estão lendo este post agora, isto significa que estou no Irã. O que acontece é que sou supersticioso (meu português em desuso não me permitiu encontrar palavra mais adequada). Não gosto de falar sobre assuntos pessoais se ainda eles não se materializaram, aconteceram. Pra mim isto é tão sagrado quanto não gritar gol antes de ver a rede balançar (por sinal, saudações corinthianas!).

Nesses últimos meses estive à procura do visto iraniano. Negaram-me em Damasco, capital síria, e ainda estou vivendo uma novela com uma mercenária agência de turismo iraniana, a qual, apesar de não ter me ajudado em nada com o visto, ameaça divulgar meu nome para o Ministério de Relações Exteriores para impedir minha entrada no país. Finalmente em Trabzon, norte da Turquia, um simpático cônsul me concedeu o visto em duas horas (em qualquer outra embaixada ou consulado, o processo dura no mínimo 10 dias).

Pretendo cruzar a fronteira no domingo (3/05). Curiosamente, enquanto Ahmadinejad está a caminho de nosso país tropical, eu estou indo para o “país dos arianos” (significado da palavra Irã). Espero que ele seja recebido com a “calorosa” recepção que merece: protestos com a tônica “Vá pro inferno!”

PS: estou digitando num teclado farsi, felizmente posso usar os acentos, mas o autocorretor do Word ainda persiste. Tenham paciência, por favour (viram?).

PSS: sei que imagens falam mais do que palavras. Sei também que ler este “funesto blog”, by Allan, exige uma baita paciência, mas não vou poder publicar fotos por conta da péssima conexão do Iraque e da queda de luz imprevisivel (ate agora ja caiu onze vezes).

PSSS: o uso de login para acesso ao blog é só por precaução. Quando sair do Irã, será irrestrito. Divulguem o login e contrassenha para quem quiserem.

PSSSS: na Syria, precisava mostrar passaporte para usar a internet e sites com extensão “co.il”, bem como You Tube, Face Book e Blogspot eram proibidos. Na Turquia, somente o You Tube. Já no Iraque… internet totalmente liberada.

Dez mandamentos da Capoeira - Monte Sinai/Egito

Antes de deixar o Egito fui conhecer o Monte Sinai, de onde Moisés recebeu a revelação do decálogo. Sem dúvida presenciei a mais bela alvorada de minha vida e tive inspiração suficiente para erigir os dez mandamentos desta empreitada.


1 – Como tudo que tá no prato e não me morde primeiro;
2 – Só peço carona e água de bica;
3 – Se é de graça, e não é passagem pro céu nem pro inferno, eu aceito;
4 – O difícil é ser moral;
5 – Cerveja, carne e chocolate, só se me pagam;
6 – Mulher minha não esfrega cueca, vira calcinha do avesso (by Maya);
7 – Resignação. Carona e mulher: elas que te escolhem;
8 – Pra aprender, tem que se expor (sempre de maneira não suicida, é claro!);
9 – Em caso de azia, má digestão ou ânsia de vômito, lembro-me de que fiz Federal (sacada com a ajuda da Maya, de novo);
10 – Pra doze horas seguidas sem carona e algumas bobagens humanas não há topete que aguente (ver post adiante).

Monday, May 4, 2009

Eu, Ben-Gurion e Fidel - Aman/Jordânia

A Jordânia não me inspirava muito ânimo, tanto que passei apenas uma semana no país. Depois de conhecer Petra fiquei mais três dias em Aman antes de ir a Damasco, Síria.

Petra


A maior parte do tempo na capital jordaniana fiquei em meu quarto, no hotel clandestino Venicia. Precisava terminar um livro que havia comprado em Israel e poderia comprometer minha entrada na Síria.

Tudo começou quando eu me perdi nos arredores de Tel Aviv. Dirigia-me à casa de um amigo que vive na Rua Ben-Gurion. Ao desembarcar do ônibus, estava na rua certa da cidade errada. Foi assim que descobri que toda cidade israelense tem uma rua Ben-Gurion.

Essa coisa de nomes de ruas sempre me fez sentir um ignorante. Por exemplo, em 23 anos de existência só sei que o Coronel Reis (nome da rua onde moro) foi um militar. Este pensamento me atormentou quando vi a foto de um velhinho com cabelos à Einstein abaixo do título Ben-Gurion estampada na capa de um livro numa loja de Jerusalém. Desconsiderei pudores orçamentários - na verdade pus na conta de meu pai - e pagamos 30 dólares pela biografia do cara.

Sem dúvida o livro de Michael Bar-Zohar foi a melhor leitura do ano. Cada hora que passei naquele muquifo foi devidamente recompensada. O que mais me impressionou na história do fundador de Israel foi sua determinação. Nelson Rodrigues dizia que o grande homem é a soma de suas ideias fixas. A ideia fixa de Ben-Gurion, nas palavras de seu secretário Yitzhak Navon, era a sobrevivência do povo de Israel.

Com apenas 14 anos BG criou uma sociedade para a divulgação da língua hebraica, Ezra Society. Aos 17 anos, diante do programa ugandista apresentado por Herzl (pai do movimento sionista), decide imigrar para a Palestina. Em suas próprias palavras, “A maneira mais efetiva para combater o ‘ugandismo’ era a formação de assentamentos na Terra de Israel”.

Em 1903, com 20 anos de idade, desembarca no porto de Jaffa e começa a trabalhar em fazendas de pioneiros. Sob péssimas condições de vida, passa fome, frio, e enfrenta moléstias.

Aos 25, decide estudar a lingua turca e as leis otomanas para que pudesse implantar o projeto sionista por vias legais. Matricula-se, assim, na faculdade de direito de Constantinopla.

Aos 32, durante a Primeira Guerra Mundial, após ser deportado da Palestina pelo Império Otomano por conta de seus trabalhos relacionados ao movimento sionista, BG compõe o Batalhão Judaico no exército britânico e desembarca em Tel Aviv após três anos de exílio.

Só escrevi um pouco da história de BG para mostrar sua ideia fixa, ou melhor, dar a dimensão de sua grandeza. Todavia, ainda falta um caso marcante de sua firmeza de caráter.

Após a declaração de independência do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948, os exércitos do Líbano, Síria, Iraque, Transjordânia e Egito declararam guerra à nova nação.
Heroicamente os israelenses conseguiram conter os inimigos, mas a maior provação se deu em 20 de junho, quando o navio Altalena (pseudônimo de Vladimir Jabotinsky), carregado com 5000 rifles, 3000 bombas, 3 mi de pentes de balas, centenas de toneladas de explosives, 250 metralhadoras, além de morteiros e bazucas, atracou a um quilômetro de Tel Aviv pretendendo descarregar o material militar que seria usado para armar a facção sionista Irgun Zvai Leumi (IZL), a qual cometeu ataques terroristas contra britânicos e árabes.

Ainda que o equipamento bélico fosse usado para combater os inimigos árabes, Ben-Gurion considerou o fato como um desafio aberto às leis do novo estado e uma violação do acordo que havia sido feito entre o governo provisório de Israel e a IZL em que os membros desta se juntariam, lealmente, aos batalhões que constituiam o exército israelense.

Como Menahem Begin, líder da organização separatista, recusou-se a negociar com o governo, B-G não hesitou: “Oponho-me a qualquer negociação. O tempo para acordos passou! Se a força está disponível, ela deve ser usada imediatamente!”

Assim, a decisão óbvia, mas difícil, foi tomada: afundar o navio. Como consequência, 14 membros da IZL foram mortos e dezenas se feriram, e Israel mostrou com aquele gesto como iria lidar com o terrorismo.

Falei de Ben-Gurion, mas ainda nada de Fidel, outro companheiro com quem dividi meu tempo em Aman. Felizmente não se trata do Fidel cubano, mas de um Fidel libanês, que estava hospedado num quarto vizinho ao meu.

Quando eu não estava com um, eu estava com o outro. Em uma das inúmeras ocasiões em que Fidel me convidou para tomar chá, ele reparou no livro. Assim, foi inevitável falarmos de Gaza, Israel, Hamas…

O libanês não é nem um pouco religioso e sua visão não traz nenhuma carga de fundamentalismo islâmico. Se digitarmos no google “Gaza” iremos nos deparar com muitos textos que compartilham com sua opinião.

Para Fidel, em 60 anos de existência da nação israelense, o governo de Israel não foi capazes de promover a paz porque não se dispõem a ceder a Cisjordânia e a faixa de Gaza para a formação do Estado Palestino.

Grupos como o Hamas não são terroristas, mas organizações de resistência contra seus colonizadores, os quais se escondem em hospitais, escolas e mesquitas por serem civis oprimidos que precisam combater seus inimigos no meio de seu próprio povo. Não se trata de uma nação organizada, com exército próprio que pode enfrentar Israel num campo de batalha.
Enfim, seu discurso é o mesmo que corre entre os esquerdistas que tentam enxergar o “humanismo”, as razões psicológicas, os motivos elevados que movem uma organização a lançar bombas a esmo para matar inocentes.

Sinceramente, é realmente difícil conversar com árabes e, algumas vezes, refugiados palestinos, sobre a questão, porque é bem possível que estou falando com pessoas que tiveram familiares mortos no conflito.

Posso entender a dor destas pessoas, as quais perderam filhos, irmãos, pais; posso chorar com elas, compartilhar a dor, o sofrimento, mas não estou disposto a me esforçar para encontrar explicações para assassinatos de judeus inocentes. Não estou disposto a deixar meus valores de lado para concluir que atentados terroristas ou morteiros em Sderot são manifestações legítimas de um povo que, depois de tantas guerras, perdas e mortes, não tem outros meios para impôr sua vontade de ser livre como nação.

Arafat teve a chance, com o Acordo de Oslo, de formar o tão desejado Estado Palestino, mas não foi capaz de renunciar ao terrorismo. Em 2000, na Conferência de Camp David, Barak ofereceu 90% da Cisjordânia, compensações por terras perdidas e até mesmo porções de Jerusalém. Novamente, Arafat não teve interesse de abraçar a proposta.

O caso Altalena demonstra como a sociedade israelense se estabeleceu diante dos elementos que B-G sempre julgou determinantes para o destino do país que criou: força e grandeza moral. Força para se defender dos inimigos que ainda desejam aniquilá-la. Grandeza moral para controlar o uso desta força e manter unida uma nação democrática e livre.

Tem gente que diz que os palestinos precisam de um Ben-Gurion. A verdade é reconfortante porque não depende de líderes carismáticos, messias... Mais do que da força bélica que advém do Irã para matar judeus, uma nação palestina só poderá nascer da mesma rigidez de principios que erigiu Israel. Ela começa na maneira que tratam os inocentes do lado inimigo e termina na condenação dos atos imorais de seus próprios pares.

Ser livre é ser a própria imposta norma

“Débil no vício, débil na virtude
A humanidade débil, nem na fúria
Conhece mais que a norma.

Pares e diferentes nos regemos
Por uma norma própria, e inda que dura,
Será à liberdade.

Ser livre é ser a própria imposta norma
Igual a todos, salvo no amplo e duro
Mando e uso de si mesmo.”

Ricardo Reis – 9/07/1.930

Beirute: a capital mais cosmopolita do mundo árabe – Síria e Líbano

Cruzar a fronteira síria me preocupava. Apesar de não ter o visto israelense em meu passaporte, temia que os oficiais desejassem revistar minhas coisas e dessem de cara com meu diário, cheio de menções a Tel Aviv, Jerusalém e Cisjordânia.

Além disso, tanto a embaixada síria em Cairo quanto a em Aman me disseram a mesma coisa: “Não emitimos visto para estrangeiros não residentes.” E completavam, “Inshah Allah, você o consegue na fronteira.” Essa coisa de ouvir “Se Deus quiser!” pra isso e pra aquilo sempre me incomodou. Quando se busca um profissional, um oficial ou funcionário de alguma organização, espera-se mais do que a vontade divina.

Tive a mesma frustrante sensação de uma das personagens do livro “A Cidade do Sol”, de Khaled Hosseini. Ao levar a esposa ao hospital, o doutor responde à pergunta do desesperado marido, “Inshah Allah, ela vai ficar melhor!”. O cara pensa, “Qualé, doutô! Eu tô te pagando pra ouvir algo além de `Inshah Allah`.”

De qualquer maneira não me restava outra opção. Assim, chequei meus pertences umas quatro vezes e me desfiz de todas as coisas relacionadas a Israel – moeda de um sheikel, pacotinho de café instantâneo, bilhetes de ônibus e, o mais difícil, uma página do meu diário em que um francês havia desenhado a bandeira israelense.

Por conta da incerteza, achei mais seguro pegar um táxi, de Aman a Damasco, do que um ônibus. Ao menos poderia pagar o motorista no final da corrida e ele, com certeza, esperaria-me até o término do processo. Se eu rodasse, poderia pagar o valor equivalente só até a fronteira ao invés de até Damasco.

No final, foi tudo muito tranquilo. O oficial sírio apenas se certificou de que não havia nenhuma evidência de passagem por Israel em meu passaporte e me concedeu o visto. Nenhum dos meus pertences foi revistado e o processo todo durou menos de 15 minutos.

Vou escrever meus comentários e impressões sobre a Síria no próximo post, porque nesta ocasião passei apenas dois dias em Damasco antes de me deslocar para o Líbano.

Depois da tentativa bem sucedida na fronteira sírio-jordaniana, senti-me mais seguro para cruzar a sírio-libanesa e decidi pela opção de transporte mais barata, isto é, o ônibus. O oficial libanês estava mais cismado do que o sírio, e ainda me perguntou, um tanto ingenuamente, “E depois? Vai pra Jerusalém?”. Pensei, “Não, eu já fui!”, e respondi, “Não, Irã.”

Antes de chegarmos a Beirute atravessamos a cadeia de montanhas libanesas. Chovia muito e havia nevado – os cedros, símbolos nacionais, ainda estavam cobertas de branco.

Desembarquei na capital por volta das 16h. A chuva persistia e coloquei meu poncho. Após duas horas e meia caminhando encontrei um hotelzinho por cinco dólares – apesar das opções de hostels do Arukikata (guia de viagem japonês) serem mais baratas do que as do Lonely Planet, mesmo aquelas consumiriam todo meu orçamento diário.

O hotel era uma zona. Pelo menos quinze homens, a maioria acima dos cinquenta anos, dividiam um apartamento de 100 metros quadrados. Além das camas em quatro pequenos quartos, havia um par delas espalhadas no corredor.

Fiquei num quartinho com mais dois senhores, um deles devia ter uns setenta e poucos anos e vendia santinhos à porta de igrejas. Ao lado de minha cama havia uma janela com vidro quebrado em que colocaram um cobertor para impedir que o vento gelado entrasse no quarto. Os lençois estavam encardidos e percebi que seria o caso de usar o saco de dormir.

Na pia da cozinha não havia bucha nem sabão para lavar louça. Um homem lavava um prato somente esfregando a mão direita sobre sua superfície. Já o banheiro… foi o meu único consolo. Apesar de não haver chuveiro, tinha vaso sanitário.

Para mim, que cresci com o Mundo da Xuxa e a didática do meu troninho, ver aquela invenção do mundo ocidental foi um alento. Sinceramente, nunca tive a objetividade e o equilíbrio necessários para utilizar aqueles buracos no chão.

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Se por um lado os inúmeros cafés ao estilo europeu, lojas de grife, restaurants, bares e discos do centro de Beirute parecem revelar a mais secular e cosmopolita capital do mundo árabe, por outro, a instabilidade política de um país que viveu por 15 anos em guerra civil ainda persiste e caminhar sozinho pelas periferias da capital pode ser perigoso (conheci um fotógrafo polonês que foi sequestrado por 48 horas pelo Hizbullah).

As marcas da guerra são visíveis em inúmeros prédios abandonados caindo aos pedaços. Há soldados por todas as partes e inúmeras vezes trombei com tanques de guerra no meio das ruas da capital libanesa.

No dia 16 de fevereiro, na noite em que cheguei, o principal líder do Partido de Deus (Hizbullah), Sayyed Hassan Nasrallah, fazia um discurso por meio de vídeo conferência a uma multidão de partidários reunidos no subúrbio de Beirute.

No âmbito da política interna, Nasrallah tentou acalmar os ânimos de seus seguidores para evitar conflitos com membros de outros partidos, fazendo alusão à morte de um jovem militante do Partido Progressista Socialista no sábado anterior. Em relação à política externa, defendeu o direito de as “forces da resistência” terem “armas de proteção antimíssel” contra Israel, o qual “não faz questão de promover a paz.”

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No Líbano, também visitei Tripoli e Khiam. A primeira é uma cidade ao norte do país, famosa por seus ‘souqs’ – bazares - compostos por perfumarias, joalherias, sapaterias, fábricas de sabão, casas de condimentos…

A segunda, fica ao sul do país. Faz parte do território desocupado por Israel em 2000. Precisei solicitar uma autorização na base military de Saida, a qual nada mais era do que um pedaço de papel rascunho escrito a mão.

Fui até Nabatiyeh, a 30 km de Khiam, e de lá peguei um táxi com soldados que estavam indo até a fronteira com Israel. O táxi nos deixou a oito quilômetros da cidade. Para nosso azar começou a cair um toró, mas para sorte dos soldados, um caminhão do exército logo em seguida passou por nós. Continuei a caminhada sozinho, esperando que alguma boa alma se compadecesse de minha molhada situação.

Enquanto caminhava à procura da antiga prisão de Khiam - hoje um museu – mantida pelas forces do South Lebanese Army de 1985 a 2000 com a conivência do Exército de Israel, contei uns sete veículos, entre caminhões, carros e tanques, das Nações Unidas.

Subindo as íngremes ruazinhas da cidade passei por grandes sobrados destruídos e abandonados por conta da guerra contra Israel em 2006. Algumas bandeiras rasgadas do Hizbullah e da Amal (partido político xiita) ainda flamulavam penduradas em postes elétricos.

O primeiro estabelecimento comercial que encontrei aberto foi uma casa de materiais de construção. Por sorte havia uma mocinha que falava inglês e pôde me indicar o caminho. Já eram quase 16h, esfriava cada vez mais e uma fina garoa se revezava com fortes pancadas de chuva.

Depois da carona de um gentil senhor, cheguei à prisão. O zelador levantou de sua cama e me mostrou uma salinha com alguns resquícios da guerra de 2006: pedaços de mísseis lançados por Israel, cabos elétricos utilizados para a tortura dos prisioneiros e fotos da IDF. Em outra sala menor, souvenirs do Hizbullah, tais como broches, bandanas e bandeiras, estavam à venda para turistas.

Como ainda chovia, fazia no máximo uns dez graus Celsius e meu corpo estava ensopado, achei melhor pagar um táxi até Nabatiyeh do que tentar carona. Paguei dez dólares a um senhor que me pareceu muito simpático.

Ele falava inglês e o considerei como um guia em Khiam, dado que até aquele momento não havia conseguido nenhuma informação sobre a cidade por meio de seus moradores.

Foi por esta razão que achei que poderia aguardar alguns minutos quando ele me disse que esperaria por algum outro potencial cliente para ajudar nos custos da corrida ao parar no acostamento da saída da cidade.

Quase uma hora depois, quando já não havia mais assunto a ser discutido a não ser seu rancor por palestinos e israelenses, indispus-me a esperar mais. No final das contas, o cara me arrumou uma carona até Nabatiyeh, destino ao qual, supostamente, ele havia sido pago para me levar.

Por sorte, Abbas, o rapaz que foi parado pelo taxista, estava indo a Beirute e me deu carona até o meu hotelzinho.

Chengado lá, só queria saber de tomar um banho quente. Depois de três noites naquele lugar, finalmente descobria como o banho de água quente funcionava: na base da hora marcada. Esperei uma hora e meia e me banhei com canequinha.

Pagãos inocentes da decadência

“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado.
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados no pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento –
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.”

Ricardo Reis – 12/06/1.934