Wednesday, October 22, 2008
Editorial do Estadao de hoje
Após 12 dias de negociações, na madrugada de ontem a Comissão de Conciliação, composta por representantes dos quatro partidos com assentos no Congresso boliviano, chegou a uma solução de consenso para pôr fim à violenta crise política - pelo menos 30 pessoas morreram em conflitos de rua - deflagrada pela decisão do presidente Evo Morales de convocar um referendo para a aprovação da nova "Constituição bolivariana" em janeiro e pela reação dos Departamentos da chamada "meia-lua", contrários ao texto constitucional e favoráveis à autonomia de suas regiões. Em seguida, numa reunião que durou 18 horas, o Congresso aprovou leis que consagraram os principais pontos do consenso. Foi confirmada a convocação do referendo para o dia 25 de janeiro, como queria Evo Morales. Mas ele teve de abrir mão dos dispositivos da nova Constituição que lhe permitiriam governar, em sucessivas reeleições, até 2019. Também teve de concordar com a reforma de pouco mais de 100 dos mais de 400 artigos da Constituição "refundadora".Evo Morales havia convocado uma manifestação monstro para forçar o Congresso a aprovar a convocação do referendo. Pretendia repetir o estratagema utilizado para a aprovação da Constituição, em dezembro do ano passado, quando uma multidão cercou o quartel onde se reunia a Assembléia Constituinte e impediu que os parlamentares oposicionistas tivessem acesso ao recinto. Desta vez, prevenidos, os oposicionistas montaram acampamento no Congresso e não se intimidaram com as ameaças de cerco prolongado e até de invasão feitas pelos líderes da manifestação, que foi, de fato, monstruosa. Segundo o governo, havia 1 milhão de pessoas nos últimos 15 quilômetros da marcha; a imprensa local estimou a multidão reunida ao redor do Congresso em 100 mil; a oposição falou em "dezenas de milhares".Ontem, às 7 horas, Evo Morales, que desde a véspera liderava a manifestação, fez um discurso pedindo calma à multidão, pois o Congresso já iniciara a votação dos projetos. Prometeu, também, sancioná-los à vista de todos. E assim desarmou-se uma situação explosiva.Com os "ajustes" e "correções" que foram feitos, agora há poucas dúvidas de que o novo texto constitucional seja aprovado no referendo de janeiro. Os pontos que provocavam as maiores reações à Constituição "bolivariana" foram ou completamente alterados ou bastante abrandados. As próximas eleições gerais ocorrerão em dezembro de 2009. Evo Morales poderá candidatar-se à reeleição nesse pleito, mas não no de 2014. Fica reconhecida a autonomia dos Departamentos, que poderão ter suas próprias Assembléias Legislativas e administrar seus recursos fiscais. Mas os Estatutos Autonômicos terão de ser adaptados à Constituição.Ainda no capítulo da organização política do Estado, os magistrados do Tribunal Supremo de Justiça continuarão sendo eleitos por sufrágio universal, mas os candidatos não mais serão selecionados pelo Controle Administrativo e Disciplinar da Justiça - órgão sujeito à influência do Executivo -, mas pela Assembléia Legislativa. Além disso, a participação popular na tomada de decisões a respeito de políticas públicas cede lugar para a participação no planejamento dessas políticas - com o que se atenua a "democracia direta e participativa" que era parte do projeto bolivariano.No capítulo dos direitos econômicos, poderá haver desapropriação em caso de necessidade ou de utilidade pública, mas mediante lei que a autorize e indenização prévia e justa - o que o texto original não contemplava. Há, também, o reconhecimento dos estabelecimentos privados de ensino, que estavam proscritos na Constituição bolivariana. Não menos importante é o reconhecimento da propriedade da terra a todas as pessoas jurídicas legalmente constituídas no país. Em referendo será decidido se será considerada latifúndio a propriedade com 5 mil ou 10 mil hectares, mas o que for definido somente se aplicará às propriedades adquiridas após o início da vigência da nova Constituição.As adaptações atendem às reivindicações de importantes setores da sociedade - os mais produtivos - que haviam sido marginalizados pela Constituição bolivariana. Resta esperar que, com isso, a paz social retorne à Bolívia.
Experiencia off-road - Santa Maria: este foi macho!
De 4x4, ate a minha mae que nao sabe usar controle-remoto. Agora em onibus de turismo como este... UHUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Tuesday, October 21, 2008
A maior declaracao de amor...
A mais bela declaracao de amor que ja recebi, talvez nao seja tao boa assim, como meu proprio irmao comentou, afinal, para mae, uma gripe é dengue, um dia sem prato de comida é desnutricao, uma noite mal-dormida é uma semana de insonia (neste caso, para ela)...
Frequently Asked Questions
1 – O que voce busca?
As vezes, penso que seria menos decepcionante para as pessoas se eu dissesse que meus país morreram, ou que tenho uma doença terminal e que quero aproveitar intensamente meus últimos días de vida. Menos dramático seria dizer que trabalho na Discovery Channel, ou que quero escrever um libro sobre a viagem. Isto porque o fato de eu dizer que nao busco nada especifico, somente a melhor experiencia possivel e, talvez, uma alema, avulta a consciencia dos que nao aceitam o fato de eu viajar sem ter nenhuma outra motivacao mais, como dizer, profunda (?). Assim, natural e jocosamente, estas pessoas descambam para seguinte explicaçao: sou louco.
2 – De onde veio a ideia?
Como ja disse, ate os meus 20 anos de idade, viajar era ir a praia com meus amigos ou visitar meus parentes no Parana no final de ano.
A dimensao atual eu extrai, precisamente, do relato de um amigo do DAGV, Joao Zanini. Ele estava viajando de primeira classe em um trem no Egito quando pensou que, para conhecer verdadeiramente o pais, seria necesario se juntar aos modestos passageiros da classe economica. Assim, largou os companheiros gringos e as batatas fritas para ficar sentado num assento quebrado rodeado de egipcios ate perceber que uma melhor opcao seria dormir no bagageiro do vagao… Nao espero que voces sintam o que senti quando li isto, tao pouco que entendam. Mas foi exatamente o que me incitou a fazer esta viagem.
3 – Por que tanto sofrimento?
Muitas vezes, apos dizer que passei frio ao dormir em rodoviarias, que dormi sobre frangos congelados, ou que viajei na carrocería de um caminhao por mais de dez horas, as pessoas me perguntam se tenho fetiche por chicote e cabresto.
Quando lia os relatos do Joao, nao tinha do, porque sabia que daquela forma, ele estava vivendo. Por favor, sintam algum outro sentimento mais elevado, como raiva e saudade, do que dó de mim.
4 – Seus pais estao vivos?
Vivos e bem casados, obrigado. Parentesis: essa pergunta me lembra outra bastante comum em Sao Paulo: “É casado? Tem filhos?”.
5 – Nao sente falta de seus pais?
Sakyamuni, ou Siddharta Gautama – o Buda, disse que e quente ter pai, mae, irmao e irma. E evidente que muitas vezes sinto frio.
6 – Por que nao pega dinheiro com seus pais?
Eu peguei. O seguro de saúde (achei o acento), a pesar (o Word insiste em deixar separado o “a” do “pesar”) de eu dizer que nao precisava, as vacinas e os livros foram custeados por eles. Além disso, quando os 300 dólares de minha conta bancária representam, na verdade, uma dezena de noites mal dormidas, centenas de horas-extras e algumas varizes, multiplico este valor por mil.
7 – Por que sozinho?
Viajar sozinho é mais fácil para tudo: pegar carona, conseguir um lugar para dormir, fazer novas amizades, pagar a passagem de volta para casa; mas também, para ser assaltado, cair numa cilada, cometer erros… De qualquer maneira, viajar sozinho também faz parte da busca pela melhor experiencia.
8 – Já está na condiçao de “impegável”?
Quando sinto meu corpo suado e grudento após alguns dias sem uma chuveirada, ou vejo meu cabelo comprido e seboso, e minhas roupas de 150 dias manchadas e encardidas, surpreendo-me com a tara étnica que faria até o Mestre Miyagi (aquele do Karate Kid) se tornar irresistible para as caboclas amazonenses, as sertanistas baianas ou as cholas (tradicionais senhoras andinas) bolivianas.
9 – Quando viaja para o Egito?
Por enquanto, 17/11: Caracas-Madri-Cairo.
10 – Já pensou em desistir?
Nao vou ser boçal para dizer que desistir nao existe no meu vocabulario, a pesar (de novo o Word) de eu ser muito orgulhoso. Mas, em desistir, ainda nao. Contudo, a fase, única até o momento, em que questionei as razoes da viagem foi a da Argentina, ou melhor, foi a posterior a Yuba.
Logo no início da jornada, a pesar de me sentir convicto em relacao ao propósito da capoeira, me deparei com esta comunidade amarela que me fez cuestionar o significado de tudo, incluindo o de minha vida (pode parecer tosco, mas realmente foi profundo). Ha muito tempo nao sentia uma paz como aquela, e tive uma forte síndrome de abstinencia nos dias posteriores.
11 – Esta se alimentando direito?
Pregunta frecuentemente feita pelas mulheres (inclui mae, prima, amigas). Estou me alimentando bem, a pesar de nao comer tanto quanto como quando estava em casa, obviamente. Alem disso, tenho reserva, a qual, pela primeira vez, parece estar diminuindo (mais por nao tomar cerveja, penso eu, do que por comer menos).
12 – Quando volta para o Brasil?
A única pregunta que, no momento, nao sei responder. Mas fiquem tranquilos, pois nao me tornarei um hippie ou alguém que tenha a viagem como um estilo de vida… Este vírus ainda está no seu auge, mas um dia deixa este hospedeiro.
PS: o autocorretor do Word pode ter alterado algunas palabras (viram?).
Evasión de Frontera y Machu Picchu
Fiquei pouquíssimo tempo na Bolívia porque prolonguei demais minha estadia no Brasil, mas ainda assim foi suficiente para acompanhar um pouco do conflito político pelo qual o país está passando. Também foi o suficiente para fazer aquilo que considero a cagada-mor da viagem (nao me importarei se pularem esta parte).
Perú se destaca por Machu Picchu, mais por nao ter me arruinado moralmente do que propriamente pelas ruínas incaícas. Foi o momento de realmente botar a prova a frase “o caminho é a meta” (novamente, extrai uma citacao do Allan). Também aprendi um pouco de artesanto, que, se nao foi suficiente para me libertar das amarras financeiras, ao menos as afrouxou consideravelmente.
Em Lima, após dividir uma cama com um argentino (é melhor já fazer a minha defesa. Trata-se de algo absolutamente normal para viajantes mochileiros ou hippies), fui calorosamente acolhido pela familia do Minoru, amigo da Seicho-No-Ie, com quem pude abandonar o portunhol e conhecer uma das melhores coisas de um país, a culinária.
Adicionei mais fotos também, embora o conteúdo nao esteja tao extenso quanto da última vez.
Desejo-lhes uma boa votacao no domingo. E se me perguntarem em quem votaria, dou uma dica: é solteiro e nao tem filhos.
PS: desculpem os erros ortográficos ou a constante atuacao do auto-corretor do Word. Depois de ter descoberto que o blogspot pode dar tiuti, preferí digitar tudo no programa da MicroSoft.
PS2: nao precisam ler de baixo para cima. Seguem, em orden cronológica:
- Refugiados políticos bolivianos y Evasor de fronteras brasileño
- Evasión de Frontera (Ltda.);
- Machu Picchu: o caminho é a meta.
Refugiados políticos bolivianos y Evasor de fronteras brasileño ii
Além de gastar muitos reais para atualizar o blog, aproveitei meu tempo em Rio Branco para obter informaçoes sobre a situaçao em Cobija/Bolívia, onde aconteceram os conflitos entre camponeses pró-Evo e os opositores pertencentes ao governo local.
Ao menos, graças ao Cuartel General da Policía Militar e a Sandrinha, funcionária da PM que me acolheu em sua casa, nao precisei me preocupar com hospedagem.
Embora eu nao tenha saído muito pela cidade, algunas coisas valem destacar (tô usando a idéia dos bullet points):
1 – A espessa fumaça das queimadas que cobria a cidade as vezes de manha a tarde;
2 – As grandes construçoes (Palácio de Governo, Ponte sobre o Rio Acre) contrastadas com o fato de nao haver água tratada em boa parte, se nao forem todas, das torneiras parecem ser uma tentativa de afirmacao de uma capital (talvez de um prefeito?) complexada.
3 – Tacacá: sem dúvida a coisa mais estranha que já comi. Feito com tucupi (tipo um caldo da mandioca), camarao, goma (tambem derivado da mandioca) e jambu (um mato que debe ter alguma propriedade anestesica). Parece anestesiar a boca, como se bochechassemos xilocaina… Sendo menos exagerado, como se bebessemos Coca-Cola depois de escovar os dentes.
4 – Angelim: a pesar de as pesquisas indicarem sua vitoria no primeiro turno, sua campanha infestava a cidade com bandeiras e o irritante barullo de apitos.
5 – Kibe de macaxeira: como um bolinho de carne com a massa feita de mandioca. Sensacional!
Brasiléia – Acre
Naturalmente, as pessoas rio-branquenses me aconselhavam a nao ir a Bolivia, ainda mais por Cobija, a pesar de terem se passado quase dez dias desde o conflito.
Tentei me calcar em fatos concretos e decidi ir a Brasiléia, fronteira com Cobija, pelos seguintes motivos:
- A Folha de SP dos dias 18 e 19 de setembro diziam que os dialógos entre governo federal e oposicao estavam caminhando positivamente;
- A namorada de um soldado da PM, Felipe, tinha ido a Cobija visitar um parente e informara que estava tudo voltando ao normal;
- O noticiário local de Rio Branco mostrava as ruas de Cobija movimentadas e as lojas abertas:
- Sabrina, uma señora vendedora de muambas, havia acabado de chegar de lá e garantiu que as coisas estavam seguras;
- Nao queria mudar meu programa, que previa Bolivia como proximo destino.
Cheguei em Brasileia por volta das 15h30 de sábado. Caminhando um pouco, vi um grupo de bolivianos conversando na porta de um hotel que estaba cheio de refugiados políticos. Falavam sobre o novo prefeito interino de Pando, um militar nomeado por Evo, e nao me deram muita bola.
Enquanto caminhava a procura dos abrigos para refugiados mantidos pelo governo federal brasileiro, um helicóptero de nosso Exercito sobrevoava a regiao. Tentei nao sair perguntando a todo mundo em quais lugares estavam concentrados os refugiados, mas por sorte perguntei a um senhor quando estaba exatamente a frente de um. Tratava-se de uma igreja evangelica que mantinha 23 pessoas, sendo tres delas crianças. Praticamente todos trabalhavam no governo de Pando.
Conversei com o pastor da igreja e este me autorizou a passar a noite lá. Os refugiados me ofereceram comida, agua, cobertores para preparar meu colchao (todos dormiam no chao, nao havia camas), e logo começaram a me explicar o que havia acontecido, ou melhor, a justificar sua inocencia. Como ja dizia o velho samba, a razao esta sempre com dois lados, e nao quis me aprofundar nestas explicacoes de quem comecou a atirar, ou de quem armou emboscada para quem (a pesar de ter conviccao de que tenha sido o lado oposicionista).
Logo de cara, me surpreendi com os celulares que nao paravam. Sempre havia alguem a receber ou a fazer ligacao. Alem disto, a noite seria tranquila, com direito a culto, refrigerante e bolo na igreja se nao fosse por uma caminhonete vermelha que deixou as mulheres apavoradas e os homens alertas pelas ruas. A policía brasileira deteve o motorista, boliviano, que estaba com uma lista contendo nomes de refugiados e uma camera fotográfica.
A crianca mais nova que estaba conozco tinha tres anos de idade e era filha de um político de Cobija. Muito provavelmente nao corria riscos em sua cidade natal, mas nao quería ficar longe do pai com medo de perde-lo. Sua mae me disse que ela falava, ciente da situacao, “Nao quero que meu pai morra.”
A madrugada passou tranquila, embora tevê e luz se mantivessem acesas e houvesse uma vigilia constante de ao menos um homem que se mantinha sempre acordado.
No domingo, fui pessoalmente verificar a situacao em Cobija. A fronteira estaba aberta, mas o Exercito brasileiro registrava o nome e o numero do documento de identidade de todos que entravam no país. Do lado boliviano, nao solicitavam nada. Nas ruas havia grande movimiento de carros e motos, e os militares estavam por toda a parte. A pesar de as coisas parecerem ter voltado ao normal, as companhias aéreas ainda nao estavam operando.
Como nao havia onibus para La Paz naquele dia, passei mais uma noite na igreja e pude acompanhar a visita que uma familia – esposa e quatro filhos - fez a um refugiado político. Foi doloroso ver um pai boliviano olhar seus filhos voltando para casa pela ponte que separa os dois paises.
Nesta noite, embora o Exercito nao tenha cumprido sua promessa de transferir todos para um outro abrigo por conta do incidente da caminhonete, uma equipe medica atendeu os bolivianos e outra pessoa, boliviana, trouxe agasalhos para todos os refugiados. Alem disso, as refeicoes sempre eran bem fartas, sobrando comida para mim. Antes de dormir, vimos pela tevé a marcha de trabalhadores rurais pró-Evo que se deslocavam de Cochabamba até Santa Cruz.
Na segunda-feira, deixei o refugio bem cedo para pegar o onibus que sairia as 8h de Cobija. Seriam aproximadamente 48 horas de viagem num onibus off road (definitivamente, nao e como aqueles onibus da Andorinha. Tem o chassi mais elevado e apenas um par de rodas traseiros ao inves de dois) que parecía uma enorme axila marrom, por conta do cheiro e da sujeira de terra, muita terra.
Por volta das 10h passamos por Porvenir, onde aconteceram os conflitos que resultaram na morte de dezenas de campesinos. No camino havia os restos de dois caminhoes incendiados, alem de outro com buracos de tiro em seu vidro dianteiro.
A viagem se deu, 97.5% do tempo, em estradas de terra, e apesar dos pulos por conta dos buracos e dos frios na barriga que lembravam uma montanha-russa velha, o meu esforço para ler nao se comparava a aventura de Greg Mortenson na Cordilheira do Karakoram para construir escolas no Norte do Paquistao (A terceira xicara cha, Ediouro).
Recortando uma densa floresta tropical que as vezes assumia a feicao de pasto recem-formado, atravessamos tres ríos: dois com balsas puxadas por barcos e uma, com poucos metros de largura, puxada por homens (vejam a foto para entender).
Preferi economizar dinheiro e, ao inves de comprar agua mineral, comprei agua de procedencia duvidosa que me deu, as 4 horas da matina, a maior prova do “Se vira nos 30” que meu esfincter ja teve. Como nao havia banheiro no onibus, dei sorte de ele parar exatamente na hora em que minhas vísceras comecaram a agonizar. Peguei minha lanterna e passei, cuidadosamente, por cima das criancas que dormiam no corredor do onibus. Se nao bastasse, o motorista nao me esperou voltar. Vi o onibus partindo e corri, ainda sem fechar a calca, pensando: “Literalmente, que merda!”.
Gracas as pilulas – nao sei o que sao – que ganhei no CONPLEI, as quais fazem voce passar da maior diarreia para a mais dura prisao de ventre (uma pilula igual a um boi), pude aguentar as 20h restantes da viagem.
Em Yucuno, apos gastar mais um peso boliviano para me certificar de que o “boi” ainda estava na barriga (“agua barata, banheiro caro”), fui convidado para almoçar por dois senhores de Porvenir e um joven de Cobija. Um destes senhores havia estado do lado dos campesinos durante o conflito e fugiu para nao ser ferido, segundo ele. Foi estranho estar ao lado de pessoas tao gentis (se me convidam para comer, sao os mais nobres do mundo) que haviam se enfrentado em lados opostos sem imaginar as atrocidades que ocorreram naquela infeliz manha de 11 de setembro (imaginar estas coisas a mesa é um pecado).
Depois do almoco comecamos a viagem pelas montanhas dos Yungas. Foram horas e horas subindo e descendo cerros por uma pessima estrada de terra que as vezes se estreitava a ponto de ficarmos a beira de um precipio de algumas dezenas de metros. A noite, como a altitude passou a se elevar, a temperatura deve ter caído abaixo dos 10ºC.
Comecando a subir a Montanha dos Yungas
Ja do lado de dentro do onibus, exceto o frio, as coisas nao mudaram muito: cheiro forte de sobaco (mas acho que ja estaba assimilando) e, de tempos em tempos, de cocô do meu companheiro de viagem de um ano, Dominique, que se sentava no banco atrás do meu; pessoas entediadas tentando dormir e pulando de suas poltronas por conta dos buracos…
Dominique, o "Chino", quebrava a monotonia do meu olfato
Em Caranavi, Guillermo, o rapaz que trabalhava em Cobija e me convidara para almoçar, alcançou o patamar mais elevado de nobreza comigo ao me convidar para tomar cerveja. Em um bar de 5 x 8, com luz negra e algumas daquelas toalhas com imagens de mulheres semi-nuas que se encontram no Brás, o boteco tinha mais ar de puteiro, a pesar de haver uma única mulher, a qual nos atendía, e duas meninas com menos de dez anos de idade.
Por volta das 6h da manha, apos as diversas tentativas de me aquecer com meu saco de dormir, chegamos em Villa Fatima, um bairro de La Paz. Como Guillermo viajaría ate Potosi somente a noite, passamos o dia juntos.
Alguma coisa me atrai aos grandes mercados ou centros comerciais, e é verdade que realmente eu aprecio observar a sua loucura característica e, muitas vezes, acabo ficando em hoteizinhos baratos da regiao. Nao foi diferente em La Paz.
Logo apos sair do terminal de onibus, Guillermo e eu fomos parar na 25 de Março pacenha com suas vans japonesas a correrem em busca de passageiros, senhoras a venderem todo tipo de coisa imaginavel (feto de lhama a papel higienico) no meio da rua, carregadores a transportar dezenas de quilos nas costas… Tudo isto me fez pensar que deveria haver algum lugar que fizesse meu tipo.
Assim, durante a procura, descobri que ha pelo menos tres tipos de quarto:
1 – Alojamiento acima de um bar ou sauna: seria o nosso motel, mas bem mais funcional, porque só te oferecem a cama (nem ducha tem). Varia de 15 a 20 bolivianos (R$4 a R$6).
2 – Alojamiento para vendedores: tem diversos tipos de quarto, mas o mais barato é coletivo. 15 bolivianos (+/-R$4.50)
3 – Hostal, Hotel, Residencial: tem instalaçoes melhores. Variam de 40Bs a 50Bs (R$11 a R$14).
Fiquei no Alojamiento Buenos Aires, tipo 2, que tem banheiros coletivos, ducha fría e quarto para tres pessoas. Além de asegurar a ausencia de ruidos (gemidos…) noturnos, coisa que o do tipo 1 nao poderia oferecer.
25 de Marco Paceña, rua do meu alojamiento
Se dizer que uma coisa sò se ve na teve é sinal de algo espantoso, as vezes ruim, dizer que so se havia visto tal coisa no Chaves é pior ainda. Tive esta constataçao ao ver as tendinhas de suco nas ruas bolivianas. É necessário ter muito cuidado ao escolher o balde, porque voce pode tomar o suco de tamarindo, com cara de laranja e gosto de limao… Fora o risco de ingerir a agua para lavar os copos.
Tambem foi na Bolivia que obtive a resposta para a pregunta que me fazia no Japao ao ver toda aquela preocupacao com TQM (Total Quality Management). Perguntava a mim mesmo o que faziam com todo aquele refugo. Vi a resposta rodando nas ruas bolivianas. A quantidade de Suzukis, Daihatsus, Nissans, Mitsubishis de segunda mao que circulam nas calles so nao te fazem pensar que se esta na terra do sol nascente por conta da peca que esta entre o volante e o banco.
Também parece existir uma outra tecnología boliviana adicionada ao veículo japonés que aciona a buzina ao menor toque do freio. Assim, se o farol fecha, a buzina toca; se o pedestre atravessa na faixa, bibi; se a kombi ou taxista acha que voce é um potencial cliente, fom-fom…
Em algumas zonas mais afastadas do centro, a que eu estava, por exemplo, os faróis foram desligados e substituídos por guardas de transito. Parece-me que os motoristas sao daltónicos… ou preferem sentir a emocao de atravessar a toda velocidade o cruzamento. Mas, justica seja feita, talvez o transito de La Paz seja tao caótico porque ha muitos veiculos de transporte de passageiros (taxis, kombis, onibus). Assim, considerando que, como em qualquer outra grande capital latino-amercina, os “profissionais do transito” sao os que dirigem pior, me resignei e só pude pensar: “Que venham os riquixás indianos, as lambretinhas vietnamitas! Eu estou pronto!”.
Durante o dia que passei com Guillermo, fiquei impressionado com sua vaidade. Comprou uma camisa de manga comprida e se recusava a continuar a usar uma calça suja (na opiniao dele, nao na minha), adquirindo uma nova. Ele fez uma cara de espanto quanto soube que eu usava a mesma calça encardida ha mais de 120 dias, mas nao mudou de idéia.
Antes de viajar, fez questao de se banhar, colocar as roupas novas e engraxar os sapatos. Apenas no final do dia ele me confessou que ia a Potosi visitar sua mae enferma, e a minha ideia de vaidade se esvaneceu. Por ser um rapaz que saira de casa para morar a milhares de quilómetros de distancia, era mais que natural que desejasse estar apresentavel a quem mais lhe desejava sucesso.
Guillermo