Thursday, January 29, 2009

Conhecendo Allah em Johaynath

As 8h30 da manha achei que ja era hora de sair de meu "esconderijo" (o bagageiro) e ter um pouco de paisagem, afinal, olhar para o teto do vagao nao era neum um pouco animador.
So nos poucos segundos que levei para para descer, todo o vagao ja havia reconhecido minha cara de forasteiro. Nao demorou muito e alguns jovens vieram se sentar ao meu lado.
Alguns minutos depois pude ver meu amigo Ambru Kara no outro vagao e me juntei a ele. Foi assim que conheci Tabet, rapaz de 30 anos que vive numa pequena vila de Esna, Johaynath.
Tabet queria que eu fosse com ele para sua vila passar o Festival do Sacrificio. Ja havia recebido outros dois convites antes para pousar em casas de recem-conhecidos, mas pelaprimeira vez fiquei realmente despreoupado com o fato de haver algum interesse secundario. Acho que o semblante de uma pessoa atesta toda sua ficha moral e Tabet tinha a expressaode um santo.
Infelizmente, nao estava disposto a mudar meu plano de ir a Aswan, porque isto me custariam alguns dias, e preferi fazer o seguinte acordo: iria a Aswan, ficaria duas noites la e,no sabado, estaria em Esna para passar o Festival, o qual comecaria no domingo.
Tabet ainda insistiu que eu fosse naquele mesmo dia, mas vendo que eu nao mudaria de ideia, apenas frisou: "Septi. Se Aruba. Mohammed Brazili." Querendo dizer que sabado, as 16h,quando eu chegasse na estacao, deveria ligar para ele e me apresentar como Mohammed Brazili,dado que meu arabe se restringia a dez palavras e seu ingles, a 20.
No sabado, cheguei exatamente as 16h na estacao. Tabet ja estava la me aguardando com uma galapeya (roupa masculina arabe) branca (ou era marrom?). Esna e uma cidade entre Luxor e Aswan, nao e muitovisitada por turistas e os cidados nao se vestem com trajes ocidentais.
Caminhamos por uma rua de terra movimentadissima, com vendedores ambulantes por toda a parte. Durante todo o percurso nao vi turista algum e isto me deixou muito feliz.
Passamos por um policial que, obviamente, abordou-nos. Nao compreendia o que Tabet e o guarda falavam, mas depois de meu amigo mostrar seu documento de identidade entendi que o policial queria que o acompanhassemos.Pesquei algumas palavras da dezena que aprendi e disse: "Sadick Tabet. Al hamd lellah!", que quer dizer, "Amigo Tabet. Gracas a Deus!" Dei um sorriso para o guarda e ele nos liberou.
Pegamos tres paus-de-arara e, uma hora depois, chegamos a Johaynath. Trata-se de uma vila bem pequena. Disseram-me que deve haver cerca de 3000 pessoas vivendo la, mas penso que o numero deve ser menor.
chegamos a casa de Tabet e eu fiquei numa salinha recebendo os cumprimentos de familiares e amigos. Um detalhe: todos eram homens ou meninos, nao fui apresentado a nenhuma mulher.
Como ja havia passado o horario do Magreb (quarta oracao matinal) e estavamos jejuando por conta da proximidade do Festival, foi nos servindo o desjejum: uma refeicao fartissimacom carne de frango, carne de vaca, feijao, repolho, arroz, dois tipos de pao, salada...
Fomos orar o Eishah (ultima oracao do dia) numa mesquita proxima e pude ver carrocas e poucos tratores estacionados a frente de algumas casas.
Fiquei um pouco receoso de estar naquela mesquita, mas fui realmente bem acolhido, sendo cumprimentado por quase todos os presentes.
Apos a oracao, tomamos cha na casa de um comerciante e, finalmente, conheci alguem que falava ingles, Issa, o qual se tornou meu interprete em Johaynath.
Naquela noite, ainda recusei convites para jantar novamente e outros para dormir em casas de amigos de Tabet.
Alem disso, joguei futebol com as criancas da vial que, pela primeira vez em minha modesta carreira futebolistica, faziam questao de que eu estivesse em seus times. Nem nas peladasde latinha do Juliao (ginasio) eu era o primeiro a ser escolhido...
Dormi numa cama de casal enorme e fiquei constrangido ao ver Tabet e seu irmao dormindo num "sofa" de madeira. Tabet me cobriu e seu irmao ligou o radio na estacao quefica 24 horas por dia recitando o Corao.
Naquele instante, passei a ser envolvido pela metafisica da cama (este movel em que fomos concebidos, temos nossos sonhos, choramos nossas dores e medimos nossos escrupulos).Senti-me como na cama de meus pais quando era colocado para dormir com oracoes apos algum pesadelo ou durante uma gripe, febre.
Uma lagrima de gratidao correu pelo meu rosto, mas nao tive mais tempo de continuar com meus pensamentos porque a hospitalidade dos habitantes de Johaynath e como uma sombradiurna que, a noite, instala-se ao pe da cama e recapitula a agenda do dia seguinte antes de dormir.Foi assim que Tabet se lembrou de que jejuarimos no dia seguinte, sendo melhor comer algo ate as quatro da manha, isto e, antes da primeira oracao.
Assim, ele se levantou e veio me explicar, com gestos, se eu preferia comer naquela hora, 22h32, ou depois - 1h, 2h ou 3h da manha! Sem sentir um pingo de fome, achei que seria melhor comer naquela hora do queacordar ele e as mulheres da familia durante a madrugada. As 23h estavamos comendo pao, melado de cana e queijo, e tomando leite com acucar.
No dia seguinte acordamos as 4h30 e fomos orar. Dormimos noavmente ate as 7h e fomos a fazenda. Em Johaynath se plantam tomates, beringelas, capim para os animais, cana de acucar, melao...Tudo com um sistema de irrigacao do deserto incrivel.




Membros da comunidade de Johaynath a frente da mesquita em que oravamos diariamente


Fomos ate a plantacao da familia de Mohammed, amigo de Tabet, e queria ajudar seu pai e seus irmaos a colherem capim, mas nao me deixaram. Em seguida, tomamos banho na Laem Sorna (aguas termais, a qual eu chamode "ofuro" ao ar livre) e fomos a casa de Mohammed para assistir aos hajis (peregrinos) em Mecca.
Laem Sorna, "Ofuro ao ar livre"
A noite, apos a ultima oracao do dia, reunimo-nos na casa de uma das autoridades islamicas da vila, onde criancas e adultos recitavam o Corao e faziam oracoes. EsporadicamenteIssa me traduzia o que era dito e, proximo do final, ele me disse que todos haviam orado para que Allah me proporcionasse tudo aquilo que desejava. Ao ouvi-lo, fiquei crispado de emocao.
No meu segundo dia na vila comecei a perceber que estava sendo objeto de disputa. Sentia-me um profeta, sem pretensao, ou, mais modestamente, um politico.Todos faziam questao de me cumprimentar ou convidar para um cha; as criancas me seguiam e anunciavam minha presenca...
Ja Mohhamed e Tabet pareciam meus acessores. Eles controlavam, e disputavam entre si, minha agenda. Muitas vezes eu recebi um convite de alguem e eles ja cortavam dizendo, "No time. No time."Em linhas gerais, eu so tinha vontade propria na hora de ir ao banheiro, e era colocado em situacoes embaracosas do tipo: "Voce vem comigo, ou vai com ele?"
Fiquei pensando no porque de toda aquela obsessao por mim e enetdi a razao quando Issa veio se despedir ao final de um dia. Disse-lhe qeu era muito cedo e pedi que ficasse mais um pouco,ao que ele respondeu: "Nao posso. Tenho mulher e filhos."
Uma das minhas maiores alegrias naquela pequena vila era conversar com Ahmed, irmao de Mohammed de apenas dez anos. Ele e eu tinhamos uma linguagem propria. Seu vocabulariose restringia a "Yes", "Ok" e "No", e, ainda assim, gracas as expressos faciais e entonacao de voz, travavamos dialogos infindaveis:


Ahmed: - Yes, Yes?

Eu: - Ok... Ok...

Ahmed: - No, No!

Eu: - Yes, yes, ok, ok!

Ahmed: - Ok, ok!

Eu: - Yes... Yes...



Ahmed Yes-Yes-Ok-Ok e suas irmas cortando capim para animais




No primeiro dia do festival fomos orar normalmente o Sohber as 5h07 e, as 7h, apos nos vestirmos com nossas melhores roupas (por melhores, em meu caso, voces ja sabem o queesperar), lavadas e passadas na vespera, e passarmos perfume e cera no cabelo, fomos fazer as oracoes para celebrar a data.






Dia do Festival do Sacrificio



A noite, fomos a mesquita de uma vila nubia (os nubios vieram do sul do Egito e do Norte do Sudao. Sao reconhecidos por sua pele mais escura) vizinha.Apos a oracao, deslocamo-nos a um salao onde autoridades islamicas da regiao fizeram uma serie de discursos.
Como em qualquer ocasiao como esta, enquanto alguns ouviam dando vivas de "Allah Al Akbar" (Allah e grandioso!), outros chochilavam com a cabeca rodando sobre o pesco como aquelas personagens de filme de terror que estao para serem exorcidas.
Em seguida, como uma boa comunidade egipcia, foi feita a premiacao das criancas que decoraram mais capitulos do Corao em 25 dias, bem como daqueles que se mais destacaram nasegunda paixao nacional, o futebol.





Autoridades islamicas da comunidade nubia


No dia seguinte nao passamos no teste de fe matinal: acordamos as sete horas da manha, deixando de fazer a primeira oracao na mesquita. Ainda assim, estiramos o tapete no chaovoltados para Mecca e oramos o Sobehr atrasado.
Apos tomar o cafe-da-manha, Mohammed, Tabet e eu fomos de moto a vila Nagh Abu Hamad. La conheci Maged, professor de ingles da escola local, com quem conversei a beira do Nilosobre o Isla, principalmente sobre o matrimonio.
Sempre qeu ouco sobre a proibicao da mulher de se casar com um "infiel", enquanto os homens podem se casar ate com quatro mulheres, inclusive nao mulcumanas, e inevitavel nao pensar na superioridade moral do ocidente cristao. Mas vez ou outra encontro alguem que fala: "O Isla diz que o homem pode se casar com ate quatro mulheres sobre a condicao deoferecer, a cada uma delas, os mesmos direitos e beneficios. Em relacao aos bens materiais, tudo bem, e possivel proporcionar as mesmas coisas. Mas e em relacao ao coracao?Isto, para mim, e impossivel!" Quando ouco isto, penso comigo mesmo: "Eis o grande homem. Senhor de si proprio."
Participei das atividades recreativas com os jovens da comunidade jogando um pouco de futebol e competindo num "Quiz" com perguntas sobre o Corao e futebol. No final, fizeramuma arrecadao de fundos entre os presentes para ajudar os palestinos de Gaza.
Voltamos a Johaynath e fomos direto a mesquita orar o Asser (terceira oracao diaria). Ao final, um vovo veio me dizer alguma coisa, que respondi com um "Shukran", obrigado, por conta denao ter entendido. Issa me explicou que ele estava me chamando a atencao por nao ter ido a mesquita rezar as duas oracoes anteriores. Encarei a repreensao como um carinho e fiquei lisonjeado.
Antes de partir, fui deixar as fotos que tirei com minha camera no computador da unica "Lan House" (entre aspas porque nenhum dos dois computadores tinham conexao a internet) de Johaynath e levei um susto ao ver minha imagem transformada em papel de parede. Alguem havia tirado minha foto e a estampado no desktop.
O adeus foi bem cruel. Enquanto me despedia da familia de Tabet e de Mohammed na frente de suas casa, outros vizinhos vinham chegando para dizer "As salam" (como tchau). Quando me virei para o pequeno Ahmed-Yes-Yes-Ok-Ok, ele me surpredeu com uma palavra nova em seu vocabulario: "Bye, bye, Mohammed Brazili!"
Na moto, com Tabet e Mohammed, ia acenando para as pessoas pelas quais passavamos, "As Salam! Shukran!". E, enquanto eu escondia minha cara quando cruzavamos com algum policial, com medo de sermos paradose dar problemas aos meus amigos, Mohammed me revelava sua preocupacao: "Voce promete que nunca se esquecera de nos?"
Como os condutores de mini-vans locais se recusaram a me levar com receio de receberem repreensoes da policia, fomos ate a ferroviaria de Esna. Nao havia previsao de hora para o proximo trem e, dado que estava na hora do Magreb (quarta oracao diaria), decidimos rezar na mesquita da estacao.
Prostrados com nossas testas no chao, ouvimos o barulho do trem se aproximando. O senhor que puxava a oracao deu uma acelerada e entrei no vagao com somente uma das meias nos pes e as botas nas maos.
Para mim, a vila de habitos singelos, pessoas calorosas e "ofuro" natural e um pedacinho de "Ganna" (Ceu). E, ainda que nao tenha me tornado islamico, posso dizer que em Johaynath conheci Allah.


Tabet e Mohammed antes do As Salam (adeus)

Luxor e Feluca Gay

Atendendo a pedidos, revelarei um conteudo em que sempre fiz questao de passar o censor: a famosa tara etnica, a dos outros, nao a minha, nao vem somente das cholas, cocaleiras, vovos (acento agudo no o) e destentadas. Ela aparece entre estivadores guaranis do Paraguai e vai ate os mulcumanos egipcios. Mas vejam bem que frisei: "a famosa tara etnica, a dos outros, nao a minha."
Aqui comeca um capitulo de "novas experiencias" que nao fiz questao de provar. Tudo comecou em Luxor que, por sinal, detestei. Apos minha estada em Esna, ir a uma cidadecomo Luxor repleta de turistas que atraem os sanguessugas de carteiras foi desconsolador.
Dormi no telhado de um albergue, no qual a cama era mais barata, e as coisas so melhoraram no ultimo dia, quando conheci Fred, de Londres.
Conversamos normalmente e ele se voluntariou a ir comigo a estacao de trem verificar os horarios para Cairo a noite. So percebi que o cara jogava no outro time apos espera-lo por meia-hora e ve-lo com um modelito baby-look rosa. Sem falar nos oculos de sol.
Nao demorou muito e ele tocou no assunto, "Do you like swing?", perguntando se eu curtia trocar de, como dizer?, posicao?, buraco?, de vez em quando.
Apesar das tentativas de me persuadir, que as vezes eram um tanto quanto constrangedoras, gostei de conhece-lo porque descobri muitas coisas do turismo gay.
Fred disse que possui uma grande rede de contatos espalhada por todo o mundo. Sempre que viaja, alem das informacoes convecionais (hoteis, restaurantes e pontos turisticos), tem encontros engatilhados e "atracoes" para passar o tempo, como, por exemplo, a Feluca Gay.
Feluca e um barco a vela que faz o transporte de turistas entre Luxor e Aswan. Ja a Feluca Gay e um servico que inclui algumas "brincadeiras" entre o barqueiro e o turistaem pleno Nilo (este tipo de informacao nao tem no Lonely Planet).
Acabei indo com Fred e seu "amigo" local, Ahmed, que conhecera em site de bate-papo, a um casamento nubio realizado no vao entre dois sobradinhos. Havia um pequeno palcoa frente e inumeras lampadas coloridas iluminavam o quintal. Enquanto alguns rapazes fumavam haxixi na entrada, outros dancavam. Ja as mulheres ficavam ao redorda pista de danca improvisada observando os homens dancando, e so iam dancar quando estes paravam para descansar um pouco.

Casamento nubio

Em momento algum toquei no assunto homossexualidade com Ahmed e se Fred nao tivesse me contado seu caso com o jovem egipcio, seria impossivel saber que o rapaz estava interessado no londrino. Isto porque os mulcumanos sao naturalmente carinhosos com os amigos: andam de maos dadas, trocam beijos no rosto e piscadelas sem nenhuma malicia.
Era 1h52 da manha quando entrei no trem. Havia muitos assentos vagos, mas optei pelo "compartimento horizontal". Deitado no bagageiro, fiquei a pensar se, naquela noite,o egipcio havia triunfado em seu romance shakesperiano. Ahmed tinha ficado de ligar para Fred assim que conseguisse burlar a vigilia dos pais.
PS: Fred tambem me disse que, dentro dos paises islamicos, os iranianos de Mahmoud Ahmadinejad, o qual afirmou estupidamente que em seu pais nao ha homossexuais, dominam as comunidades e chats gays.

Deserto Branco

Antes de partir para Israel passei uma noite no White Desert. Fui com mais tres gringos e dois guias.
Apesar de o motorista ter quebrado a Toyota velha ao dar uma de piloto de Rally Dakar e ficarmos na estrada por uma hora, foi recompensador observar o ceu, sob a luzda lua cheia, contando as estrelas cadentes.

Carro quebrado no Deserto Branco

Antes de dormir, ao constatar que nao havia o canto de um grilo sequer, pensei: "como sera o barulho ao acordar?" As quatro acordei e percebi que ainda estava muito escuro,voltei a dormir e as oito ja abri os olhos para escutar alguma coisa. O maximo que ouvi foi um zumbido imaginario.
Na volta ainda tivemos de viajar de pe num onibus por cinco horas pagando o preco de turista, isto e, o dobro dos locais. Abri o jornal no dia seguinte e uma noticia sangrentainformava que mais de 50 pessoas haviam morrido por conta da queda de um onibus num canal.
Nao e a toa que uma vova de sessenta e poucos anos viajando sozinha pelo Oriente Medio me disse: "Aqui e mais provavel que um turista morra na estrada do que em um atentando terrorista."

Jerusalem: o sagrado e o profano

Vista apos cruzar a fronteira israelense: Mar Vermelho


O sol havia acabado de nascer quando atravessei a fronteira de Israel, apos alguns bons minutos de questionamentos feitos por uma jovem do exercito mais nova que eu.
Passei pelo detector de metais enquanto minhas malas estavam no raio-x. Tudo normal ate o soldado apontar para a minha mochila azul, na qual carrego livros. Foitirando um por um ate chegar no que eu havia guardado intencionalmente no fundao, o Corao, presente de Wael, funcionario do Sultal Hostel.
Como o cara nao falava ingles, ele chamou a referida mocinha mosrtando o livro sagrado islamico em uma das maos.
Ela me perguntou o porque de estar com aquele livro, o que eu ia fazer em Israel, qual era o meu Deus, o que meus pais achavam de eu esatr tendo contato com a religiaomulcumana...
Depois foi vendo os outros livros. Uma pena que ela nao conhecesse Nelson Rodrigues, Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho. Mas ela conhecia, como os tutsis e os ianomamis,Barack Obama, "Por que voce esta lendo sobre Obama? Gosta dele?". Enchi a boca para dizer, "Todo mundo esta lendo, mas eu preferia McCain."
Achei que, pela primeira vez, ela tinha ficado satisfeita com uma resposta minha. Mas, ao saber que eu ia vijar por Siria, LIbano e Ira e precisava do visto em papelalheio ao meu passaporte, continuou: ""Nao acha Ira perigoso?"
Ainda passei por outra mocinha, esta mais calma, do tipo que vira a cabeca pro Mar Vermelho, da um suspiro de satisfacao, e volta a trabalhar mais resignada. Mas, ainda assim,levei um tempo la.
Talvez por ser brasileiro com cara de japones e viajar so com algumas miseras mochilas, ela tenha hesitado em me dar o visto de tres meses, dizendo que Israel era um pais muitocaro e bla, bla, bla...
Para nao por a extremidade de saida do seu sistema digestorio na reta, ligou para um superior e so depois me deu o visto de tres meses (quase que em meu passaporte!).
Era um dia lindo e a vista para o Mar Vermelho e realmente inspiradora. Optei por caminhar os dez quilometros ate a rodoviaria. Ja no caminho se constata o obvio: Israel esta muito mais para os melhores exemplos do mundo Ocidental do que para o Oriente Medio. Digo isto por conta da qualidade de sua infra-estrutura (porto, rodovias,onibus, construcoes) e do funcionamento de suas instituicoes (desde o rapaz que te vende a Coca de um UNICO preco, ate o bilhete de onibus comprado sem necessidade debarganhar).
Enquanto esperava o onibus para Jerusalem na rodoviaria de Eilat, senti um enorme vazio, mas nao era pela solidao. Vi garotos e garotas menores que eu com suas mochilas,fardas e uzis que batiam em suas costas como se fossem violoes. Jovens com quem, em comum, eu nao tinha nem a idade.
Deixando de lado esta breve divagacao, no onibus eu assisti a primeira briga entre um mulcumano e um judeu. Aquele perturbava os passageiros ouvindo musica com seucelular e este pediu para que ele o desligasse. Foi o comeco de uma longa confusao. Uma cena que, a parte religioes, podia acontecer em qualquer lugar. Mas na Terra Santapode ser potencializado por intolerancias (religiosas, etnicas).
Hospedei-me no hostel Al Arab no quarteira mulcumano da Cidade Velha, onde tudo e mais barato. Estava num lugar sagrado para tres grandes religioes - a crista, a mulcumanae a judaica -, mas, ainda assim, foram inumeras as vezes em que vi judeus e arabes trocando provocacoes. Os cristaos tambem nao se salvam do profano, e brigam entre si (armenios,sirios, gregos...) disputando as paredes, telhads e centimetros quadrados do chao da Igreja do Santo Sepulcro. Ouvi dizer que, quando fazem a limpeza da Igreja, a policia ficaa espreita para evitar confusoes do tipo: "Voce esfregou o meu territorio!"
Uma vez, quando eu estava caminhando pelo mercado mulcumano, um garoto de onze ano cujas feicoes me lembraram muito um amigo da Seicho-No-Ie, Artur, disse-me, sem protocolo,"Eu odeio os judeus!" Pra mim, que desde pequeno encarei a conjugacao do verbo odiar como uma coisa pudica, foi um grande espanto ouvir esta afirmacao.
A alguns dias do Natal, eu tentava buscar nao apenas papais-noeis e pinheirinhos, mas um pouco de espirito natalino. Nao precisa ser cristao para se ter fe na fraternidade dospovos, e era triste perceber que nao bastava orar cinco vezes na Al Aqsar ou tres no Kotel (Muro das Lamentacoes) para se enxergar no outro uma criacao divina.

Padarias da Cisjordania

Muro de concreto que separa Ramallah, na Cisjordania, de Israel


Abbas e Arafat, icones da Autoridade Nacional Palestina

Inas e Randa

Meu loft-padaria

Tentando localizar a padaria

Cheguei a cidade de Ramallah, na Cisjordania, as 16h. Fazia muito frio e ja havia me decidido que, caso nao encontrasse um albergue barato, voltaria naquele mesmo dia para Jerusalem.
Apesar do imponente muro de concreto que separa a cidade de Israel, o micro-onibus entrou rapidamente. O controle era maior com os veiculos que estavam saindo. Nestes, ospassageiros palestinos precisavam sair e passar por uma forte fiscalizacao (raio-x, detector de metais, inspecao de documentos).
Comi um falafel, metade do preco de Jerusalem, e fui procurar um lugar para ficar. O primerio hotel que encontrei custava 20 dolares. Segui caminhando e fui pedir informacao a um cabeleireiro. Ele nao falava muito ingles, mas ao me convidar para tomar cafe, percebi que realmente queria me ajudar.
Fiquei la por uma hora, e nesse meio tempo ela ja havia especulado de eu ficar na mesquita, ou talvez na mercearia do vizinho. No final das contas, por volta das 18h, seu paime disse alguma coisa da qual captei somente "sleep" e "bakery".
Acompanhei-os de carro e no caminho algumas palavras do pai do cabeleireiro (que vergonha de nao lembrar os nomes) confirmaram meu pressentimento, "Ramallah cold. Bakery hot. God!"Aquela coisa de dormir em padaria me era familiar e lembrei-me do Waldomiro de Deus, o artista plastico de Goiania que em sua adolescencia dormia sobre um forno de assar pao (vejamposts antigos).
Passamos pelo campo de refugiados de Jelas, contituido apos a Guerra de 67, e, meia-hora depois, chegamos a vila de Einyabroud. A padaria ficava numa rua razoavelmente movimentada.O irmao e o cunhado do cabeleireiro eram responsaveis por ela.
Ofereceram-me Coca, biscoitos e paes e, as 20h30, fecharam o comercio e foram para suas casas. Deixaram-me sozinho no meu loft com banheiro privado, teve a cabo, "calefacao" eestoque de biscoitos para uma semana inteira.
As 5h30 eles ja regressavam para pegar no batente de novo. Duas horas depois, o cabeleireiro e seu pai vieram me pegar. Levaram-me de volta ate onde tudo comecou, o salao de beleza,e eu segui meu caminho.
Queria me comunicar com os locais, saber como era ser um palestino, mas estava dificil encontrar alguem que falasse ingles. Imaginei que, com a minha cara e conhecendo os arabes,nao demoraria muito para ser abordado por alguma pessoa.
Levei duas horas ate Mohaned me dizer, "How are you?". Ele e Rafat estavam numa padaria (ha alguma coisa de mistica com elas, so pode ser) comprando o cafe-da-manha quando eupassava pela frente.
Fui com ele ate o Instituto de Frances de Ramallah, onde estavam alojados, e conversamos poralgumas horas.
Rafat cresceu em um campo de refugiados e trabalh como ator. Mohanad naceu na Jerusalem Ocidental, mas se recusa a se identificar como um israelense e, no campo nacionalidadede seu documento de identidade se ve uma sequencia de asteriscos. Seu passaporte e jordaniano. Trabalha fazendo filmes e viajara para o Brasil em abril por conta de um progrmade intercambio cultural.
Em seguida, caminhamos pelas ruas da cidade e eles foram me mostrando as marcas da ocupacao pelas forcas israelenses em 2002: destrocos de uma casa, desniveis no meio-fio porconta dos tanques de guerra. Numa ocasiao, pararam-me para dizer que naquele lugar onde estavamos um militante respeitado e admirado pelos palestinos foi assassinado porum agente secreto israelense.
Muhanad tinha um encontro com um amigo a uma hora e me convidou para que eu o acompanhasse. No escritorio de uma organizacao nao governamental palestina que coordenaprojetos sociais orientados ao publico infato-juvenil, conheci Allah, que nascera em Gaza e havia conseguido se mudar para Ramallah ha alguns meses gracas ao seu trabalho.
Allah me mostrou em seu computador suas paixoes: a musica (havia gravado um clipe em Gaza de uma cancao que falava sobre a formacao do Estado Palestino) e a sua filha de umano, a qual exibia orgulhosamente.
Mohanad e Allah seguiram conversando, vez ou outra traduziam o que estavam falando. Uma delas foi que ambos acreditavam que Israel invadiria Gaza em breve (estamos no dia 23 de dezembro).
De la fui conhecer o antigo campo de refugiados de Kad'Ora. Numa mercearia fui abordado por uma jovem, RANDA, a qual me convidou para almocar hamburgueres. Achei engracado que,enquanto quase todos os mulcumanos com quem tive contato queriam me levar para o Isla, a primeira moca com quem conversava me pedia, humoradamente, para que eu a levasse de la.
Randa me apresentou sua amiga, Inas, que assim como ela trabalha como enfermeira num hospital da cidade. Falamos sobre a proibicao do namoro e a obrigatoriedade do turbante.Como boas mulcumanas, elas nunca haviam tido qualquer contato fisico com um homem (nem sequer um inocente selinho). Ao me mostrar a foto de seu passaporte palestino, naqual ela estava com os cabelos soltos, Randa resmungou: "Por que tenho que usar turbante? Eu nao gosto disto!"
Voltei para Kad'Ora e Mohamed, filho do dona da mercearia onde conheci Randa, convidou-me para dormir em sua casa.
Fui com ele ate um cafe no qual trabalhava todas as noites e fiquei conversando com seu amigo, Mustafa, enquanto ele gerenciava os negocios.
Mustafa me explicou como um jovem deve proceder caso se interesse por uma mulher: pede-se a sua mae, ou irma, que va conversar com a familia da moca. Marca-se um encontro,sempre sob os olhares dos pais da pretendente, e assim o futuro casal tem a oportunidade de se conhecer.
Ainda convesariamos sobre Arafat, idolatrado por muitos palestinos que conheci; Hamas, "preocupado com a defesa dos palestinos de Gaza"; e sobre o direito de Ira de detera bomba atomica, "um equilibrio de forcas mundiais necessario".
Como nao havia muitos clientes no cafe naquela noite, Mohamed pode voltar mais cedo para casa. Jantamos, fumamos uma sheesha e eu dormi enquanto eles assistiam a Al Jazeera.

Como fui parar na cidade de Jesus

Natal em Belem com mulcumanos

Estava eu caminhando pelas estreitas ruas do quarteirao mulcumano na Cidade Velha de Jerusalem quando vi um microfone da Globo. Conhecia o homem que o segurava de uma reportagem do Globo Reporter sobre Israel.
Tratava-se do primeiro brasileiro que via no Orinete Medio e segui meu impulso de trocar umas palavras em portugues. QUando percebi que o camera-man estava me filmando, fuiinocente a ponto de dizer: "Por que voce esta me filmando? Nao filma nao que eu so queria conversar..."
O reporter me aconselhou a ir a Belem, com certeza la eu encontraria arvores de Natal e papais-noeis. Segui o conselho de Alberto Gaspar (procurei seu nome na internet depois),correspondente da Globo no Oriente Medio, e fui para a cidade natal de Jesus Cristo.
Como ja havia estado em Ramallah, os muros que separam Belem de Israel nao me causaram o espanto inicial. Procurei um hotel barato e consegui me hospedar no As Salam por 13 dolares.Talvez o proprietario, mulcumano, tenha sido contagiado pelo espirito natalino, dado que comecara cobrando 50 dolares, media para a ocasiao de alta temporada.
Durante o dia, visitei a Igreja da Natividade e assisti ao desfile de uma fanfarra. A noite, fiquei ao redor de um palco montado na praca principal da cidade. As atracoes artisticaseram, em sua maioria, constituidas de espanhois. Nao me lembro de er ouvido uma cancao natalina e a unica vz que ouvi "I wish you a Merry Christmas" foi de um grupo de turistascoreanos.
Durante o show, fiquei com um grupo de rapazes mulcumanos. Um deles teria prova da faculdade no dia seguinte e se despediu mais cedo. Um momento que se destacou para o publicomasculino local foi quando uma cantora espanhola metida a Britney Spears subiu no palco. Quando ela jogou a jaqueta e ameacou tirar a blusinha, os homens entram em delirio.Nao duvido de que os niveis de testosterona somados tenham alcancado os dos homens na apresentacao feminina feita em comeco de Gioconda.
A grande maioria dos cristaos que conheci estavam trabalhando e comemorariam o Natal so em Janeiro porque seu calendario tem uma diferenca em relacao ao gregoriano.
O Presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, chegou por volta ads 21h e participaria da missa que seria celebrada na Igreja da Natividade a meia-noite. Umgrande contingente de soldados fazia sua seguranca e podia se ver militares armados dividindo os telhados dos edificios ao redor da praca com os cameras-man de emissoras detelevisao.
No dia seguinte voltei a Jerusalem. Liguei para meus pais e ouvi a reclamacao, "VOce podia ter avisado que tinha dado entrevista pra Globo." Dei risada e perguntei em qualhorario eu tinha aparecido. Fiquei mais tranquilo quando soube que a materia havia saido no Bom Dia Brasil.
Vi a reportagem pela internet e as maravilhas da edicao de imagens haviam cortado a parte em que eu resmungava para o camera-man. Como nunca tive a sindrome de "danca o siri' oude "filme eu, Galvao", nao vou divulgar o link.

Centro Islamico em Arara - Israel

Numa das manhas que estava em Jerusalem visitei a mesquita Al Aqsar, uma das mais sagradas do mundo para os islamicos. O funcionarionao me deixou entrar dizendo que o acesso era permitido somente para mulcumanos. Contestei dizendo que so queria orar e, as perguntasque me fazia indagando se eu era islamico, eu replicava com "tergiversacoes diplomaticas" que nao negavam nem confirmavam.
No final, apos fazer uma par de perguntas relacionadas aos pilares do Isla e ao Wudu (purificacao do corpo feita antes da oracao), o homemme deixou entrar.
Fui orar na mesquita outras vezes e, numa delas, encontrei Sher Tariq (sher e um pronome de tratamento usado em respeito a islamicosdevotos), com que havia conversado pelos quarteiroes da Cidade Velha.
Ele me convidara para passar alguns dias num Centro Islamico no norte de Israel, cidade de Arara. Como planejava passar a vesperade Natal em Belem, combinamos que eu iria para la no dia 25.
No dia de Natal, apos o Eishah (ultima oracao do dia, apos o por do sol), peguei carona com um onibus que viera do norte com mulcumanos quevinham para Jerusalem orar na Al Aqsar. Tres horas depois, desembarquei em um posto de gasolina na rodovia onde Tariq e um amigo jame esperavam.
Fomos direto ao Centro, onde um grupo de "shers" nos esperavam para jantar. O predio ficava bem ao lado de uma mesquita e garotos e senhores ja dormiam em colchoes espalhados em um salao encarpetado.
Reunimo-nos a um grupo de cinco ou seis pessoas em outra sala. NO meio de lencois, travesseiros e colchoes estirados no chao haviauma farta bandeja com comida. Enquanto jantavamos, o Sher Ramada (nao me lembro de seu nome, na verdade), responsavel por aquele encontro islamico,foi falando sobre sua fe e suas viagens ao redor do mundo pregando os ensinamentos de Maome.
Como quem ja conhece o tipo de visita que eu fazia, isto e, aquela em que o turista so quer "saber mais a respeito", contou-me uma estoria:dois peixes, um pequeno e um grande, estavam em volta de um anzol a discutir se deveriam comer a isca ou nao. O pequeno queria devora-la,mas o grande o aconselhava a nao faze-lo porque iria para numa frigideira.
O peixe grande representava os profetas e "shers", os quais conhecem a verdade que transcende este mundo carnal, e, portanto, seguemos preceitos religiosos. O pequeno, os infieis que, ainda que tenha tido contato com a verdade, nao seguem seus preceitos e vao arder nona frigideira, quer dizer, no fogo do inferno.
E ainda completou, dizendo que entre o "infiel ignorante" e o "infiel que so quer dar uma olhada", o ultimo e o pior. Realmente, a ignorancia e uma bencao.
As 23h fomos para a casa do amigo de Tariq. Uma residencia de dois andares linda e espacosa com bandeiras da Arabia Saudita na fachadae uma mensagem de voz acionada ao se abrir a porta, "Allah e o unico Deus e Mohammed seu profeta".
Entramos e o aparelho de som estava ligando tocando um cd que recitava os capitulos do Corao.
As 4h45 do dia seguinte acordamos e fomos a mesquita orar o Sobehr (primeira oracao diaria). De la fomos ao Centro no qual todosja estavam reunidos em torno do Sher Ramada, o "Peixe Grande" (Tariq e eu o chamavamos assim). Ele estava sentado em uma cadeiraenquanto os demais, no chao.
Ao perceber minha presenca, chamou-me para que eu me sentasse ao seu lado. Ia me acomodar no chao, mas ele pediu que trouxessem umacadeira para mim. Nessa altura ja comecei a sentir certo mal-estar. E foi ai que ele me disse para repetir "Ahad an Lailah ila Allah waana Mohammed Rasur Allah", a frase escrita na bandeira da Arabia Saudita e acionado ao se abrir a porta da casa de Musa, amigo de Tariq.
Sabia o que aquilo significa, ano apenas literalmente. Trata-se do primeiro pilar do Isla, e um anuncio de que voce e um mulcumano.Fui pusilanime, com medo de cometer uma impostura, e repeti constrangido.
Em seguida, um por um, recebi os cumprimentos dos presentes. Havia gente ate tirando fotos e filmando com seus celulares.
Naquele dia fomos a mesquita mais quatro vezes. Na ultima, para rezar o Eishah, um senhor veio me dizer, do nada: "Voce sabia queSadam Husseim havia ordenado aos seus subordinados que encontrassem alguem para lhe ensinar ingles? Dez dias se passaram e Sadamfoi exigir explicacoes sobre a razado da demora. Seu secretario lhe disse que haviam encontrado tres americanos, mas julgaram melhormatar todos."
Ouvi aquilo sem saber o que fazer. Achei que o cara tivesse problema mental, mas depois Tariq me disse que por muito tempo elehavia trabalhado como comediante em Tel Aviv.
Ficamos na mesquita para jantar e Abed Mawassi disparava sem descanso um monte de piadas. Ao ouvir pilherias do tipo"como um gay se senta na cadeira?" Enquanto alguns riam a ponto de fazer Maome se revirar no caixao, Tariq e Mussa davam um sorriso de constrangimento e me diziam, "Isto era antes de ser um Sher, antes! Hoje ele eoutro homem."
Ouvindo Sher Mawassi vestido de galapeya (traje tradicional arabe) e com barba a la Profeta Maome, tive uma pequena visao do Paraiso.Imaginei judeus ordoxos, militantes do Hamas, soldados da IDF, padres armenios, Tariq, Mussa e eu reunidos naquela mesquita e soltandogargalhadas. E o bulicoso piadista continuava, para a alegria geral dos povos do ceu, "um padre, um sher e um rabino foram para o cabeleireiro..."