Thursday, January 29, 2009

Deserto Branco

Antes de partir para Israel passei uma noite no White Desert. Fui com mais tres gringos e dois guias.
Apesar de o motorista ter quebrado a Toyota velha ao dar uma de piloto de Rally Dakar e ficarmos na estrada por uma hora, foi recompensador observar o ceu, sob a luzda lua cheia, contando as estrelas cadentes.

Carro quebrado no Deserto Branco

Antes de dormir, ao constatar que nao havia o canto de um grilo sequer, pensei: "como sera o barulho ao acordar?" As quatro acordei e percebi que ainda estava muito escuro,voltei a dormir e as oito ja abri os olhos para escutar alguma coisa. O maximo que ouvi foi um zumbido imaginario.
Na volta ainda tivemos de viajar de pe num onibus por cinco horas pagando o preco de turista, isto e, o dobro dos locais. Abri o jornal no dia seguinte e uma noticia sangrentainformava que mais de 50 pessoas haviam morrido por conta da queda de um onibus num canal.
Nao e a toa que uma vova de sessenta e poucos anos viajando sozinha pelo Oriente Medio me disse: "Aqui e mais provavel que um turista morra na estrada do que em um atentando terrorista."

Jerusalem: o sagrado e o profano

Vista apos cruzar a fronteira israelense: Mar Vermelho


O sol havia acabado de nascer quando atravessei a fronteira de Israel, apos alguns bons minutos de questionamentos feitos por uma jovem do exercito mais nova que eu.
Passei pelo detector de metais enquanto minhas malas estavam no raio-x. Tudo normal ate o soldado apontar para a minha mochila azul, na qual carrego livros. Foitirando um por um ate chegar no que eu havia guardado intencionalmente no fundao, o Corao, presente de Wael, funcionario do Sultal Hostel.
Como o cara nao falava ingles, ele chamou a referida mocinha mosrtando o livro sagrado islamico em uma das maos.
Ela me perguntou o porque de estar com aquele livro, o que eu ia fazer em Israel, qual era o meu Deus, o que meus pais achavam de eu esatr tendo contato com a religiaomulcumana...
Depois foi vendo os outros livros. Uma pena que ela nao conhecesse Nelson Rodrigues, Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho. Mas ela conhecia, como os tutsis e os ianomamis,Barack Obama, "Por que voce esta lendo sobre Obama? Gosta dele?". Enchi a boca para dizer, "Todo mundo esta lendo, mas eu preferia McCain."
Achei que, pela primeira vez, ela tinha ficado satisfeita com uma resposta minha. Mas, ao saber que eu ia vijar por Siria, LIbano e Ira e precisava do visto em papelalheio ao meu passaporte, continuou: ""Nao acha Ira perigoso?"
Ainda passei por outra mocinha, esta mais calma, do tipo que vira a cabeca pro Mar Vermelho, da um suspiro de satisfacao, e volta a trabalhar mais resignada. Mas, ainda assim,levei um tempo la.
Talvez por ser brasileiro com cara de japones e viajar so com algumas miseras mochilas, ela tenha hesitado em me dar o visto de tres meses, dizendo que Israel era um pais muitocaro e bla, bla, bla...
Para nao por a extremidade de saida do seu sistema digestorio na reta, ligou para um superior e so depois me deu o visto de tres meses (quase que em meu passaporte!).
Era um dia lindo e a vista para o Mar Vermelho e realmente inspiradora. Optei por caminhar os dez quilometros ate a rodoviaria. Ja no caminho se constata o obvio: Israel esta muito mais para os melhores exemplos do mundo Ocidental do que para o Oriente Medio. Digo isto por conta da qualidade de sua infra-estrutura (porto, rodovias,onibus, construcoes) e do funcionamento de suas instituicoes (desde o rapaz que te vende a Coca de um UNICO preco, ate o bilhete de onibus comprado sem necessidade debarganhar).
Enquanto esperava o onibus para Jerusalem na rodoviaria de Eilat, senti um enorme vazio, mas nao era pela solidao. Vi garotos e garotas menores que eu com suas mochilas,fardas e uzis que batiam em suas costas como se fossem violoes. Jovens com quem, em comum, eu nao tinha nem a idade.
Deixando de lado esta breve divagacao, no onibus eu assisti a primeira briga entre um mulcumano e um judeu. Aquele perturbava os passageiros ouvindo musica com seucelular e este pediu para que ele o desligasse. Foi o comeco de uma longa confusao. Uma cena que, a parte religioes, podia acontecer em qualquer lugar. Mas na Terra Santapode ser potencializado por intolerancias (religiosas, etnicas).
Hospedei-me no hostel Al Arab no quarteira mulcumano da Cidade Velha, onde tudo e mais barato. Estava num lugar sagrado para tres grandes religioes - a crista, a mulcumanae a judaica -, mas, ainda assim, foram inumeras as vezes em que vi judeus e arabes trocando provocacoes. Os cristaos tambem nao se salvam do profano, e brigam entre si (armenios,sirios, gregos...) disputando as paredes, telhads e centimetros quadrados do chao da Igreja do Santo Sepulcro. Ouvi dizer que, quando fazem a limpeza da Igreja, a policia ficaa espreita para evitar confusoes do tipo: "Voce esfregou o meu territorio!"
Uma vez, quando eu estava caminhando pelo mercado mulcumano, um garoto de onze ano cujas feicoes me lembraram muito um amigo da Seicho-No-Ie, Artur, disse-me, sem protocolo,"Eu odeio os judeus!" Pra mim, que desde pequeno encarei a conjugacao do verbo odiar como uma coisa pudica, foi um grande espanto ouvir esta afirmacao.
A alguns dias do Natal, eu tentava buscar nao apenas papais-noeis e pinheirinhos, mas um pouco de espirito natalino. Nao precisa ser cristao para se ter fe na fraternidade dospovos, e era triste perceber que nao bastava orar cinco vezes na Al Aqsar ou tres no Kotel (Muro das Lamentacoes) para se enxergar no outro uma criacao divina.

Padarias da Cisjordania

Muro de concreto que separa Ramallah, na Cisjordania, de Israel


Abbas e Arafat, icones da Autoridade Nacional Palestina

Inas e Randa

Meu loft-padaria

Tentando localizar a padaria

Cheguei a cidade de Ramallah, na Cisjordania, as 16h. Fazia muito frio e ja havia me decidido que, caso nao encontrasse um albergue barato, voltaria naquele mesmo dia para Jerusalem.
Apesar do imponente muro de concreto que separa a cidade de Israel, o micro-onibus entrou rapidamente. O controle era maior com os veiculos que estavam saindo. Nestes, ospassageiros palestinos precisavam sair e passar por uma forte fiscalizacao (raio-x, detector de metais, inspecao de documentos).
Comi um falafel, metade do preco de Jerusalem, e fui procurar um lugar para ficar. O primerio hotel que encontrei custava 20 dolares. Segui caminhando e fui pedir informacao a um cabeleireiro. Ele nao falava muito ingles, mas ao me convidar para tomar cafe, percebi que realmente queria me ajudar.
Fiquei la por uma hora, e nesse meio tempo ela ja havia especulado de eu ficar na mesquita, ou talvez na mercearia do vizinho. No final das contas, por volta das 18h, seu paime disse alguma coisa da qual captei somente "sleep" e "bakery".
Acompanhei-os de carro e no caminho algumas palavras do pai do cabeleireiro (que vergonha de nao lembrar os nomes) confirmaram meu pressentimento, "Ramallah cold. Bakery hot. God!"Aquela coisa de dormir em padaria me era familiar e lembrei-me do Waldomiro de Deus, o artista plastico de Goiania que em sua adolescencia dormia sobre um forno de assar pao (vejamposts antigos).
Passamos pelo campo de refugiados de Jelas, contituido apos a Guerra de 67, e, meia-hora depois, chegamos a vila de Einyabroud. A padaria ficava numa rua razoavelmente movimentada.O irmao e o cunhado do cabeleireiro eram responsaveis por ela.
Ofereceram-me Coca, biscoitos e paes e, as 20h30, fecharam o comercio e foram para suas casas. Deixaram-me sozinho no meu loft com banheiro privado, teve a cabo, "calefacao" eestoque de biscoitos para uma semana inteira.
As 5h30 eles ja regressavam para pegar no batente de novo. Duas horas depois, o cabeleireiro e seu pai vieram me pegar. Levaram-me de volta ate onde tudo comecou, o salao de beleza,e eu segui meu caminho.
Queria me comunicar com os locais, saber como era ser um palestino, mas estava dificil encontrar alguem que falasse ingles. Imaginei que, com a minha cara e conhecendo os arabes,nao demoraria muito para ser abordado por alguma pessoa.
Levei duas horas ate Mohaned me dizer, "How are you?". Ele e Rafat estavam numa padaria (ha alguma coisa de mistica com elas, so pode ser) comprando o cafe-da-manha quando eupassava pela frente.
Fui com ele ate o Instituto de Frances de Ramallah, onde estavam alojados, e conversamos poralgumas horas.
Rafat cresceu em um campo de refugiados e trabalh como ator. Mohanad naceu na Jerusalem Ocidental, mas se recusa a se identificar como um israelense e, no campo nacionalidadede seu documento de identidade se ve uma sequencia de asteriscos. Seu passaporte e jordaniano. Trabalha fazendo filmes e viajara para o Brasil em abril por conta de um progrmade intercambio cultural.
Em seguida, caminhamos pelas ruas da cidade e eles foram me mostrando as marcas da ocupacao pelas forcas israelenses em 2002: destrocos de uma casa, desniveis no meio-fio porconta dos tanques de guerra. Numa ocasiao, pararam-me para dizer que naquele lugar onde estavamos um militante respeitado e admirado pelos palestinos foi assassinado porum agente secreto israelense.
Muhanad tinha um encontro com um amigo a uma hora e me convidou para que eu o acompanhasse. No escritorio de uma organizacao nao governamental palestina que coordenaprojetos sociais orientados ao publico infato-juvenil, conheci Allah, que nascera em Gaza e havia conseguido se mudar para Ramallah ha alguns meses gracas ao seu trabalho.
Allah me mostrou em seu computador suas paixoes: a musica (havia gravado um clipe em Gaza de uma cancao que falava sobre a formacao do Estado Palestino) e a sua filha de umano, a qual exibia orgulhosamente.
Mohanad e Allah seguiram conversando, vez ou outra traduziam o que estavam falando. Uma delas foi que ambos acreditavam que Israel invadiria Gaza em breve (estamos no dia 23 de dezembro).
De la fui conhecer o antigo campo de refugiados de Kad'Ora. Numa mercearia fui abordado por uma jovem, RANDA, a qual me convidou para almocar hamburgueres. Achei engracado que,enquanto quase todos os mulcumanos com quem tive contato queriam me levar para o Isla, a primeira moca com quem conversava me pedia, humoradamente, para que eu a levasse de la.
Randa me apresentou sua amiga, Inas, que assim como ela trabalha como enfermeira num hospital da cidade. Falamos sobre a proibicao do namoro e a obrigatoriedade do turbante.Como boas mulcumanas, elas nunca haviam tido qualquer contato fisico com um homem (nem sequer um inocente selinho). Ao me mostrar a foto de seu passaporte palestino, naqual ela estava com os cabelos soltos, Randa resmungou: "Por que tenho que usar turbante? Eu nao gosto disto!"
Voltei para Kad'Ora e Mohamed, filho do dona da mercearia onde conheci Randa, convidou-me para dormir em sua casa.
Fui com ele ate um cafe no qual trabalhava todas as noites e fiquei conversando com seu amigo, Mustafa, enquanto ele gerenciava os negocios.
Mustafa me explicou como um jovem deve proceder caso se interesse por uma mulher: pede-se a sua mae, ou irma, que va conversar com a familia da moca. Marca-se um encontro,sempre sob os olhares dos pais da pretendente, e assim o futuro casal tem a oportunidade de se conhecer.
Ainda convesariamos sobre Arafat, idolatrado por muitos palestinos que conheci; Hamas, "preocupado com a defesa dos palestinos de Gaza"; e sobre o direito de Ira de detera bomba atomica, "um equilibrio de forcas mundiais necessario".
Como nao havia muitos clientes no cafe naquela noite, Mohamed pode voltar mais cedo para casa. Jantamos, fumamos uma sheesha e eu dormi enquanto eles assistiam a Al Jazeera.

Como fui parar na cidade de Jesus

Natal em Belem com mulcumanos

Estava eu caminhando pelas estreitas ruas do quarteirao mulcumano na Cidade Velha de Jerusalem quando vi um microfone da Globo. Conhecia o homem que o segurava de uma reportagem do Globo Reporter sobre Israel.
Tratava-se do primeiro brasileiro que via no Orinete Medio e segui meu impulso de trocar umas palavras em portugues. QUando percebi que o camera-man estava me filmando, fuiinocente a ponto de dizer: "Por que voce esta me filmando? Nao filma nao que eu so queria conversar..."
O reporter me aconselhou a ir a Belem, com certeza la eu encontraria arvores de Natal e papais-noeis. Segui o conselho de Alberto Gaspar (procurei seu nome na internet depois),correspondente da Globo no Oriente Medio, e fui para a cidade natal de Jesus Cristo.
Como ja havia estado em Ramallah, os muros que separam Belem de Israel nao me causaram o espanto inicial. Procurei um hotel barato e consegui me hospedar no As Salam por 13 dolares.Talvez o proprietario, mulcumano, tenha sido contagiado pelo espirito natalino, dado que comecara cobrando 50 dolares, media para a ocasiao de alta temporada.
Durante o dia, visitei a Igreja da Natividade e assisti ao desfile de uma fanfarra. A noite, fiquei ao redor de um palco montado na praca principal da cidade. As atracoes artisticaseram, em sua maioria, constituidas de espanhois. Nao me lembro de er ouvido uma cancao natalina e a unica vz que ouvi "I wish you a Merry Christmas" foi de um grupo de turistascoreanos.
Durante o show, fiquei com um grupo de rapazes mulcumanos. Um deles teria prova da faculdade no dia seguinte e se despediu mais cedo. Um momento que se destacou para o publicomasculino local foi quando uma cantora espanhola metida a Britney Spears subiu no palco. Quando ela jogou a jaqueta e ameacou tirar a blusinha, os homens entram em delirio.Nao duvido de que os niveis de testosterona somados tenham alcancado os dos homens na apresentacao feminina feita em comeco de Gioconda.
A grande maioria dos cristaos que conheci estavam trabalhando e comemorariam o Natal so em Janeiro porque seu calendario tem uma diferenca em relacao ao gregoriano.
O Presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, chegou por volta ads 21h e participaria da missa que seria celebrada na Igreja da Natividade a meia-noite. Umgrande contingente de soldados fazia sua seguranca e podia se ver militares armados dividindo os telhados dos edificios ao redor da praca com os cameras-man de emissoras detelevisao.
No dia seguinte voltei a Jerusalem. Liguei para meus pais e ouvi a reclamacao, "VOce podia ter avisado que tinha dado entrevista pra Globo." Dei risada e perguntei em qualhorario eu tinha aparecido. Fiquei mais tranquilo quando soube que a materia havia saido no Bom Dia Brasil.
Vi a reportagem pela internet e as maravilhas da edicao de imagens haviam cortado a parte em que eu resmungava para o camera-man. Como nunca tive a sindrome de "danca o siri' oude "filme eu, Galvao", nao vou divulgar o link.

Centro Islamico em Arara - Israel

Numa das manhas que estava em Jerusalem visitei a mesquita Al Aqsar, uma das mais sagradas do mundo para os islamicos. O funcionarionao me deixou entrar dizendo que o acesso era permitido somente para mulcumanos. Contestei dizendo que so queria orar e, as perguntasque me fazia indagando se eu era islamico, eu replicava com "tergiversacoes diplomaticas" que nao negavam nem confirmavam.
No final, apos fazer uma par de perguntas relacionadas aos pilares do Isla e ao Wudu (purificacao do corpo feita antes da oracao), o homemme deixou entrar.
Fui orar na mesquita outras vezes e, numa delas, encontrei Sher Tariq (sher e um pronome de tratamento usado em respeito a islamicosdevotos), com que havia conversado pelos quarteiroes da Cidade Velha.
Ele me convidara para passar alguns dias num Centro Islamico no norte de Israel, cidade de Arara. Como planejava passar a vesperade Natal em Belem, combinamos que eu iria para la no dia 25.
No dia de Natal, apos o Eishah (ultima oracao do dia, apos o por do sol), peguei carona com um onibus que viera do norte com mulcumanos quevinham para Jerusalem orar na Al Aqsar. Tres horas depois, desembarquei em um posto de gasolina na rodovia onde Tariq e um amigo jame esperavam.
Fomos direto ao Centro, onde um grupo de "shers" nos esperavam para jantar. O predio ficava bem ao lado de uma mesquita e garotos e senhores ja dormiam em colchoes espalhados em um salao encarpetado.
Reunimo-nos a um grupo de cinco ou seis pessoas em outra sala. NO meio de lencois, travesseiros e colchoes estirados no chao haviauma farta bandeja com comida. Enquanto jantavamos, o Sher Ramada (nao me lembro de seu nome, na verdade), responsavel por aquele encontro islamico,foi falando sobre sua fe e suas viagens ao redor do mundo pregando os ensinamentos de Maome.
Como quem ja conhece o tipo de visita que eu fazia, isto e, aquela em que o turista so quer "saber mais a respeito", contou-me uma estoria:dois peixes, um pequeno e um grande, estavam em volta de um anzol a discutir se deveriam comer a isca ou nao. O pequeno queria devora-la,mas o grande o aconselhava a nao faze-lo porque iria para numa frigideira.
O peixe grande representava os profetas e "shers", os quais conhecem a verdade que transcende este mundo carnal, e, portanto, seguemos preceitos religiosos. O pequeno, os infieis que, ainda que tenha tido contato com a verdade, nao seguem seus preceitos e vao arder nona frigideira, quer dizer, no fogo do inferno.
E ainda completou, dizendo que entre o "infiel ignorante" e o "infiel que so quer dar uma olhada", o ultimo e o pior. Realmente, a ignorancia e uma bencao.
As 23h fomos para a casa do amigo de Tariq. Uma residencia de dois andares linda e espacosa com bandeiras da Arabia Saudita na fachadae uma mensagem de voz acionada ao se abrir a porta, "Allah e o unico Deus e Mohammed seu profeta".
Entramos e o aparelho de som estava ligando tocando um cd que recitava os capitulos do Corao.
As 4h45 do dia seguinte acordamos e fomos a mesquita orar o Sobehr (primeira oracao diaria). De la fomos ao Centro no qual todosja estavam reunidos em torno do Sher Ramada, o "Peixe Grande" (Tariq e eu o chamavamos assim). Ele estava sentado em uma cadeiraenquanto os demais, no chao.
Ao perceber minha presenca, chamou-me para que eu me sentasse ao seu lado. Ia me acomodar no chao, mas ele pediu que trouxessem umacadeira para mim. Nessa altura ja comecei a sentir certo mal-estar. E foi ai que ele me disse para repetir "Ahad an Lailah ila Allah waana Mohammed Rasur Allah", a frase escrita na bandeira da Arabia Saudita e acionado ao se abrir a porta da casa de Musa, amigo de Tariq.
Sabia o que aquilo significa, ano apenas literalmente. Trata-se do primeiro pilar do Isla, e um anuncio de que voce e um mulcumano.Fui pusilanime, com medo de cometer uma impostura, e repeti constrangido.
Em seguida, um por um, recebi os cumprimentos dos presentes. Havia gente ate tirando fotos e filmando com seus celulares.
Naquele dia fomos a mesquita mais quatro vezes. Na ultima, para rezar o Eishah, um senhor veio me dizer, do nada: "Voce sabia queSadam Husseim havia ordenado aos seus subordinados que encontrassem alguem para lhe ensinar ingles? Dez dias se passaram e Sadamfoi exigir explicacoes sobre a razado da demora. Seu secretario lhe disse que haviam encontrado tres americanos, mas julgaram melhormatar todos."
Ouvi aquilo sem saber o que fazer. Achei que o cara tivesse problema mental, mas depois Tariq me disse que por muito tempo elehavia trabalhado como comediante em Tel Aviv.
Ficamos na mesquita para jantar e Abed Mawassi disparava sem descanso um monte de piadas. Ao ouvir pilherias do tipo"como um gay se senta na cadeira?" Enquanto alguns riam a ponto de fazer Maome se revirar no caixao, Tariq e Mussa davam um sorriso de constrangimento e me diziam, "Isto era antes de ser um Sher, antes! Hoje ele eoutro homem."
Ouvindo Sher Mawassi vestido de galapeya (traje tradicional arabe) e com barba a la Profeta Maome, tive uma pequena visao do Paraiso.Imaginei judeus ordoxos, militantes do Hamas, soldados da IDF, padres armenios, Tariq, Mussa e eu reunidos naquela mesquita e soltandogargalhadas. E o bulicoso piadista continuava, para a alegria geral dos povos do ceu, "um padre, um sher e um rabino foram para o cabeleireiro..."

Maya, Arie e Teo

Maya e Arie

Sete anos depois de ouvir a estoria, ganho o livro! Obrigado, Maya!


Maya e Eu

Quem me conhece bem sabe de tres coisas: sou chorao, ranjo os dentes quando durmo e idolatro o Teo.
Vou deixar os dois primeiros pontos para outra oportunidade. O que importa agora e a estorinha do Teo. Para quem nunca ouviu falar, conto bem rapidamente.
Teo era um menino que descobrira que a cor azul tranquilizava as pessoas. Imaginou qeu se todos pintassem suas casas de azul, o mundo seria um lugar melhor. E, assim, escreveu cartas para aquelesque julgou como pessoas influentes: George Bush (presidente dos EUA), FHC (presidente do Brasil), Alckmin (governador de SP), Marta Suplicy (prefeita de Sao Paulo).
Depois de muito trabalho e nenhuma resposta, ele sentou-se sob uma arvore e, desiludido e cansado, comecou a chorar. Acabou dormindo e, quando acordou, percebeu que estava em frentea sua casa e que, pasmem, ela era amarela!
A partir do momento em que Teo pintou sua casa de azul e que as coisas comecaram a mudar. Pouco a pouco seus vizinhos, percebendo os beneficios da cor azul, pintaram seus lares, e assim, progressivamente, seguiram-seas vilas, as cidades, os estados...
Por muito tempo minha doutrina esta residida nesta pequena estoria, o que muitos ja devem saber. O que ninguem sabe e como o Teo entrou na minha vida. E e sobre esta historia que escrevo.
Tudo se passou no colegial. A Federal era, e deve continuar sendo, um circo de bizarrices intelectuais. Em todos aqueles adolescentes com rostos em que explodiam espinhas, pulsavauma insaciavel fome de saber, um desejo insano de transformar o mundo.
Apenas para que voces tenham uma ideia, havia o jovem que com quinze tinha terminado Casa Grande & Senzala e se dedicava a proxima escalada: a Enciclopedia Britanica. Outra, era a campeade todas as Olimpiadas de Matematica e ja se preparava para o ITA estudando integrais enquanto eu ainda tinha dificuldades com baskara.
Mas entre todas estas figuras ilustres, eu tinha uma especial admiracao pela garota que lia bulas medicas e havia lido a biblia para passar o tempo: Maya.
Ela e eu costumavamos passear pelo bosque. Acho que ela gostava de estar comigo porque eu a ouvia, enquanto minha atracao era que ela falasse daquele seu jeito peculiar quenao se cansa, nao da suspiros, nao para nem para aspirar um pouco de ar.
Muitas vezes quando eu a ouvia parecia que ela colhia as palavras corretas para definir toda as minhas angustias existenciais. E foi as vesperas de um debate em que ambos defenderiamoso anarquismo (ou era o comunismo?) numa aula de sociologia e que o Teo apareceu.
A historia passou a ser minha doutrina, ou melhor, meu atestado de culpa. Ainda que eu continuasse a querer "revolucionar" o mundo abominando a ALCA, a Walt Disney e o Roberto Marinho,a estoria nao deixava escapulir minha responsabilidade e isto me deu,apesar de continuar um jovem esquerdista, um pouco de autocritica.
O tempo passou. A Maya foi fazer filosofia na USP, eu, administracao na GV. Nao nos vimos mais e mal trocavamos emails. Foi no Acre que eu soube mais detalhadamente que os rumoresacacianos ("Amigos do Acacio" e um grupo de e-mails do colegial) de que ela ia se casar eram verdadeiros.
Para meu espanto, a ateia havia se tornado judia e estava morando em Jerusalem. Namorava um israelense russo e iria se casar na epoca em que eu estaria no Oriente Medio.
Oito de Janeiro de 2009, depois de vestir camisa, calca social e sapato, percebi que ainda nao estava realmente pronto para a cerimonia de casamento de minha querida amiga.Por sorte, a minha vaidade nao estava no armario da minha casa, mas a 200 metros de distancia, a cinco dolares de meu alcance.
Desde que o Leo Barone (amigo do DAGV) botou nome no meu penteado, Igreja da Pampulha, percebi que o tamanho do meu topete determina a minha auto-estima. Assim, passado o gel no cabelo,senti-me Fernando Narciso Oshima.
O casamento seria relativamente perto de meu hostel em Tel Aviv, mas como ja havia me perdido uma vez (ao procurar a rua Ben Gurion na cidade de Bat Yam, fui parar na Ben Gurion de Holon), julgueimelhor sair com duas horas de antecedencia.
Cheguei antes da noiva e, ao dizer isto, voces podem pensar: "Grande feito. A noiva e sempre a ultima a chegar." Sim ela e a ultima a chegar, e nao sem atrasar uns bons minutos, no mundo ocidental.Num casamento judaico, ela e a primeira a chegar porque tem uma sessao de fotos e, em seguida, recebe os cumprimentos dos convidados.
Depois de SEIS anos sem ve-la, foi assustador ver a coleguinha dos passeios no bosque se tornar mulher de veu e grinalda. Ao mesmo tempo, era curiosamente delicioso constatar queela seja a primeira da turma a se casar. A narradora da estoria de Teo sempre esteve na vanguarda por conta de sua constante busca de aprender, de ser uma pessoa melhor, dese sentir realizada.
Ao pensar nisto, quando vi Arie, o noivo, pisando a taca, que eu achei que era para celebrar o juramento mas que na verdade simboliza a destruicao do templo de Jerusalem,eu quase me junto ao seleto grupo de solucos lacrimejantes femininos.
O que se seguiu a cerimonia foi uma intercalacao de danca com refeicoes. Acho que os casamentos judaicos sao os mais fartos e animados.
Teo continua sendo um grande professor, mas hoje sinto que recebi um indulto. Enxergo uma cepa libertaria em sua estoria. Depois de Yuba e deste casamento, pintar a casa de azulnao e um meio para melhorar a humanidade, e um fim em si mesmo. Cultivar um lar, ser um bom conjuge, pai ou mae, tudo isto e que deveria realmente importar.
Nao hesito em dizer que a Maya esta no meu Top-5, com vacancia de duas posicoes, de pessoas que mais admiro por sua constante impaciencia que nao da tregua ao conformismo. Trata-sede alguem que tem consciencia de que e totalmente dona de seu destino. Uma caracteristica fundamental que define os genios.
Nesta nova etapa, desejo que se sinta cada vez mais plena. E tenho certeza de que seu lar sera repleto de paz, sempre cuidadosamente pintado de azul, ainda que ajam sobre eleos efeitos naturais da chuva e do vento, porque a tarefa de manter a casa azul e permanente.

"Tudo ok com seu Corao!"


Tel Aviv, Mar Mediterraneo. Dificil abandona-la...

Estava cruzando a fronteira de volta para o Egito e pensava mais no que deixara para tras do que encontraria pela frente.
Durante minha estada na Terra Santa, passei mais tempo com arabes do que com judeus, ate porque estes nao sao calorosos como os primeiros. Mas, ainda assim,despedi-me de Israel com uma profunda admiracao pelo seu povo.
Foi, pricipalmetne, dificil deixar Tel Aviv, mas seria impossivel passar mais tempo la, ainda que eu continuasse a fazer bicos limpando restaurantese colocando panfletos em caixas de correio. O custo de alimentacao e hospedagem eram muito altos para o meu orcamento.
Uma noite, caminhando pela praia, vi um casal e me perguntei o porque de eles nao poderem simplesmente viver aquele romance com todos as bobagens e delicadezas que lhe saoinerentes.
O povo israelita precisa estar sempre afirmando seu direito de existir, seja quando bocais como Chavez, MOrales e Lula abrem a boca, seja quando Ahmadinejad diz que Israeldeve ser varrido do mapa.
E por isso que entendo o motivo de se lembrarem, a todo momento e ate mesmo nas ocasioes mais felizes (o casamento, por exemplo), da destruicao do templo de Jerusalem. Sua historiae a medida de sua forca.
Mas, enfim, estava na fronteira...Divaguei demais porque estas coisas passavam pela minha cabeca enquanto minhas mochilas estavam no raio-x. Estava tao longe com meus pensamentosque nem me importei quando o oficial me disse, apontando para a mochila azul na qual carrego livros: "Livros? Quero ve-los!"
Alguem ja deve ter dito que se conhece uma pessoa por suas leituras... Pois bem, o oficial egipcio foi retirando cada livro ate que, em um deles, fiz questao de ressaltar: "Corao!"Se ao cruzar a fronteira israelense fazia questao de esconder aquele livro, agora queria levanta-lo para o alto.
Achei que nao haveria problema, mas o oficial chamou um outro, provavelmente superior. Como se o expediente do oficial que falava ingles houvesse acabado, chamaram um rapaz quefazia propaganda do Hilton Hotel para ser meu interprete. Comecou: "Por que voce tem tantos livros?"; "O que e este livro?" (apontando para Angustia, de Graciliano Ramos); "E este?" (agorasegurava Contra o Consenso, de Reinaldo Azevedo).
Em seguida, passou para os livros que falavam sobre o Isla. "Por que voce tem o Corao?"; "Voce e mulcumano?". E finalizou, "Aguarde sentado!", levando o meu livro sagrado islamico.
Como eles nao estavam com meu passaporte, fiquei pensando o que podiam estar checando que demorava tanto.
Vinte minutos depois fui chamado. Levaram-me ate um outro oficial que tinha a farda mais limpa e brilhante de todos os que ja havia visto. Este me dissem, com voz de "Sua Excelencia": "Sente-se! Estou verificando se seu Corao esta correto." Respondi com um "ok", como se dissesse, "entao ta bom".
Ele tinha um outro exemplar aberto em sua mesa e estava comparando folha por folha, Surat por Surat (capitulo por capitulo). Por fim, terminou, "Ok. Sua versao esta correta. Pode ir."
Realmente nao sabia que os oficiais da fronteira de Taba, Egito, alem de verificarem passaportes e mochilas, tinham que aprovar versoes do Corao.